Indiscreta Janela

quinta-feira, dezembro 23, 2004

Lá fora está chovendo...

Hoje, inverti os papéis. Passei de observadora a observada. Eles, nas janelas. Eu, na rua, sozinha. Ou melhor, eu e a chuva. Tomei uma chuva como há tempos não tomava. Eu estava no centro da cidade, num prédio desses inteligentes, que não têm janelas, não têm ascensoristas, não têm porteiros mas, dizem, têm neurônios.

Por conta de toda a inteligência do edifício, eu, burra, não percebi que estava chovendo. Não dava para ouvir o barulho da água caindo. Eu me aproximei da porta do prédio e ela já foi abrindo, toda esperta. Nem pestanejei. Saí decidida. Tomei, literalmente, um banho de água fria. Estava chovendo horrores.

E aí, já era tarde. Minha postura de mulher independente, apressada e determinada não me permitiu voltar para debaixo da laje. Continuei caminhando, passo um pouco mais apertado, firme e forte em direção ao carro. Carro este que não chegava nunca! Como eu pude estacionar tão longe?

No meio do caminho, tomei gosto pela brincadeira. Ergui a cabeça e fui curtindo os pingos enormes que me encharcavam. Foi quando vi um monte de vultos nas janelas. Todo mundo me olhando. Até fiquei com raiva no começo. Será que esse povo não tem mais nada pra fazer? Mas, depois, pensei... "Pobres mortais... Estão enclausurados em caixas de concreto, vendo a chuva cair. Por conta do ar condicionado superpotente e das janelas herméticas, não podem nem ouvir o barulhinho, que é o mais legal..."

Percebi que eu era uma privilegiada. Entrei no carro com um sorriso de criança. Desembacei o vidro e ainda dei uma olhadinha para os meus observadores. O que será que eles pensam de mim? Que sou uma azarada que parou o carro longe e se ferrou? Péim. Resposta errada. Que vou ficar doente por conta da água fria? Péim de novo. Resposta absolutamente equivocada. Que perdi a pose só porque estou parecendo um pinto molhado? Tsc, tsc...

Só vai acertar quem disser que eu fiquei feliz pra caramba com a água que veio do céu e quebrou a minha rotina. Ainda bem que eu não faço escova no cabelo. Ainda bem que eu não estava de blusa branca sem sutiã. Ainda bem que eu estava de sapato fechado. Ainda bem que a chuva caiu.

***
À noite, já em casa, de roupa trocada e bem quentinha, percebi que a chuva continuava caindo. Parei em frente à janela e me deparei com vários vizinhos na mesma posição. Todos prestando a maior atenção na dança da água com o vento. O interessante é que ninguém disfarça. Tá todo mundo na janela mesmo, parado, olhando pra fora. Coisa que não se faz em dia de sol. Talvez seja porque a chuva tem um movimento diferente, que merece ser admirado. Talvez. Mas, pra mim, o que acontece é o afloramento de um hábito que todos têm e poucos assumem: o de observar os outros. Em dias chuvosos, a água vira uma espécie de cortina, através da qual as pessoas podem espiar a vida lá fora, sem medo de serem flagradas.

quarta-feira, dezembro 22, 2004

Luzes de Natal

Jesus já está prestes a nascer e o bom velhinho a escorregar pela chaminé. Os preparativos começaram há, pelo menos, vinte dias, mas só hoje senti a verdadeira presença das luzes de Natal. Elas estão em toda parte. Na varanda do vizinho, ao longo do prédio do lado, piscando no balão perto da quadra. Com todo respeito aos fãs do bom velhinho e cia., a cidade fica brega demais!

Claro que a iluminação oficial - do tipo árvore de Natal na Lagoa Rodrigo de Freitas - é linda e esperada durante todo o ano. Mas quando cada um resolve dar um toque especial a essa época, ninguém segura. Numa varanda, as luzes são todas coloridas. Na outra, só tem vermelho, mas que não pára de piscar. O prédio na beira da pista tem uma cascata de luzes, do último ao primeiro andar. Não sei como as pessoas conseguem dormir com tanta iluminação.

Com meus vizinhos mais próximos, não é diferente. Em um dos apartamentos, as luzinhas acompanham todo o desenho da janela. Uma esquadria verde, azul, amarela, vermelha, verde, azul, amarela, vermelha... Os mais tímidos não colocam as luzes no lado de fora. Mas, para compensar, a árvore de Natal parece infestada de vaga-lumes.

No 907, as luzinhas acendem e apagam o tempo todo. Curioso isso. Pra que deixar a árvore piscando durante a madrugada? Começo a achar que meu vizinho acredita em Papai Noel, e quer guiá-lo até a meia perdurada na parede. E dá-lhe energia elétrica.

***
Outro dia, eu estava deitada, lendo. Já era tarde e o silêncio imperava. De repente, minha leitura foi interrompida por um "jingle bell" agudo e irritante. Larguei o livro, ajoelhei na cama e puxei um pedaço da cortina. Na janela da frente, uma criatura de camisola rosa estava ajeitando um emaranhado de luzinhas coloridas, que ela perdurou no pára-peito. E a musiquinha saía dessas luzes, que iam piscando no ritmo da melodia óbvia. A mulher acabou o arranjo, fechou a janela e foi dormir. Deixou o barulhinho estridente do lado de fora, me incomodando a noite inteira. Dá para ter espírito natalino desse jeito???

***
Seqüestraram o Papai Noel. E foi no shopping, domingo à noite. No cenário do Pólo Norte, a cadeira do velhinho estava ocupada apenas por um bilhete de "Volto Já". Mas ele não voltou. No lado de fora, três meninas, já roucas, gritavam "Papai Noel, cadê você? Eu vim aqui só pra te ver!". Resolveram comer pipoca, para não perder a viagem.


domingo, dezembro 19, 2004

Pra que time você torce?

Sabe aquela piada do cara sentadão no sofazão, de chinelão, vendo televisão? Pois é... meu vizinho do 1001 está assim. Barriga estufada na camisa rubro-negra, testa pingando de suor. Tá tomando cerveja desde as três da tarde, quando começou a se preparar para o jogo do domingo.

Vida longe do Maracanã é assim: tem que apelar para a televisão. Se o cara é fanático por futebol, a mulher pode esquecer o domingo à tarde. Aproveita e esquece também o sofá - que vai ser ocupado por ele, o chinelão, a lata de cerveja e a camisa do time. Às vezes, o jornal fica ali do lado, jogado, aberto no caderno de Esportes.

Melhor fazer como a mulher do meu vizinho. Saiu há horas, logo depois do almoço. Levou o carro e o cartão de crédito. Tomara que o Flamengo se livre do rebaixamento e o cara, tão cego de felicidade, não perceba a quantidade de sacolas que vão chegar em casa daqui a pouco.

***
O pior é que, depois da rodada do Brasileirão, ou outro campeonato qualquer, vêm aqueles programas de TV com cenário verde e uns cinco ou seis "especialistas" comentando os jogos do dia. Os rapazes que me perdoem, mas aquilo é o fim! No início da minha vida matrimonial - há umas duas encarnações -, o domingo à noite era até engraçado. Os dois deitados na cama, controle remoto na mão. Bastava eu vacilar e... lá estava o cenário verde e aquele blá, blá, blá.

Mas começo de vida a dois é sempre um mar-de-rosas. Para não ter um chilique e quebrar a casa recém-montada, resolvi me aliar ao inimigo. Aceitei assistir Mesa Redonda, Terceiro Tempo, e sei-lá-mais-o- quê, desde que esses programas mudassem de nome. Lá em casa, eles eram os "Acaba Casamento". Não deu outra.

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Difícil concorrer com futebol. Quer irritar um flamenguista? Basta chamá-lo de vascaíno. Quer enfurecer um corintiano? Elogie a atuação do Palmeiras. Trocar o time do cara é xingar a mãe. Por isso, nunca esqueço do que aconteceu com o Seu Paulo.

Ele era casado com a Dona Marta há mais de quarenta anos. Tinham dois filhos. Um dia, Seu Paulo morreu. No velório, o filho mais velho, que era muito parecido com ele, foi abordado por um rapaz. "O senhor é irmão dele?", perguntou, apontando para o corpo presente. "Não, sou filho".

- Filho do Seu João?
- Não, do Seu Paulo. O nome dele era João Paulo, mas ele era conhecido como Paulo. Você é amigo do meu pai?
- Peraí, eu sei que o nome dele é João Paulo, mas a gente chama de João. E eu sou filho dele.

Dona Marta se ampara ao ver uma senhora, o rapaz e mais duas moças se apresentando como a família do João. Uma confusão danada dentro da capela. Tudo o que o Seu João Paulo escondeu a vida inteira foi revelado horas depois de sua morte. Ele tinha duas famílias. Para uma, era João. Para a outra, Paulo. Com Dona Marta, viveu quarenta e três anos. Com Dona Marina, trinta e sete. Chamava as duas carinhosamente de "Má", para não correr riscos.

No enterro, não se falava em outra coisa. A dor dos familiares era amenizada pela raiva de tanto tempo de mentiras. A irmã do Seu João Paulo, Dona Alice, assistia a tudo calada. Durante toda a vida, era foi a única que soube de tudo. Participou das festas de família, dos batizados, aniversários. Até representou o irmão em alguns momentos, quando os eventos familiares de ambos os lados coincidiam. Diante da fúria das viúvas, Dona Alice disse que estava muito abalada com a morte do irmão e não queria tratar de coisas "menores".

Os filhos do Seu João Paulo tentavam ser compreensivos. Afinal, eram todos do mesmo sangue, tinham de manter a calma. Começaram a conversar e até sorrir com nostalgia ao lembrar como o pai tinha sido bom para eles.

- Nunca vou esquecer do dia em que fui ao São Januário. Como o papai tinha orgulho do nosso time!
- Botafogo?
- Não. Vasco.
- Mas o papai era fanático pela estrela solitária!
- Peraí! O meu pai, o Seu Paulo, era vascaíno doente.

Silêncio. Com os olhos cheios de lágrimas, os filhos ficaram lembrando dos jogos que assistiram com o pai, as camisas oficiais, as bandeiras. Ter duas mulheres, ainda vai... Mas ter dois times??? Como ele pôde fazer isso? Vendo aquilo tudo, Dona Alice saiu de fininho. Não suportaria a pressão para revelar o verdadeiro time do irmão.

* N.A.: Os nomes são fictícios, mas a história é verdadeira. Juro!

terça-feira, dezembro 14, 2004

Pronto-socorro

Num dia de insônia, todas as luzes do prédio da frente apagadas, fiquei assistindo TV durante a madrugada. Depois de uma cochilada rápida no intervalo de um filme, percebi uma movimentação no 905. Luzes acesas, minha vizinha estava passando mal. Se apoiando nas paredes, com a mão na barriga, foi ao telefone pedir socorro.

Em meia hora, o apartamento era invadido por uma verdadeira equipe de resgate. Médico de jaleco e dois homens enormes, vestidos com um macacão azul. Pareciam mecânicos, na verdade. Deitaram a moça na cama, abriram uma maleta cheia de vidrinhos e começaram a preparar um coquetel de remédios. Não demorou muito para a moça estar com soro na veia. E um dos enfermeiros-mecânicos segurando o tubinho de soro no alto. Haja braço.

O médico preencheu alguns papéis, fez a moça assinar uma guia. Os três foram embora e a paciente continuou deitada, já com esparadrapo no braço e cara de chapada. Eu, do lado de cá, fiquei incomodada, pensando... e, agora, quem vai trancar a porta?

***
Essa é uma das coisas ruins de morar sozinha. Você SEMPRE tem que trancar a porta. Seu namorado dormiu na sua casa e resolveu sair de manhã cedo? Você tem que sair da cama quentinha e andar até a porta para trancá-la. Você está preparando o jantar e seus amigos resolvem ir ao bar, comprar a bebida que tá faltando? Você tem que largar a faca, passar uma água na mão e ir até a sala para trancar a porta. Sua manicure acabou de fazer sua unha e está indo embora? Você tem que fazer o maior malabarismo para trancar a porta sem esbarrar a chave no esmalte que ainda não secou.

Já pensei em colocar aquelas maçanetas que não giram do lado de fora. É só bater a porta e pronto, ninguém entra! Mas sempre me lembro do Homem Nu do Fernando Sabino, que deu uma escapadinha para fora do apartamento sem roupa e foi sacaneado pelo vento. A porta bateu e lá estava o homem nu, pelas ruas do Rio de Janeiro. É claro que nunca vou passear pelo corredor do prédio pelada, mas essa história já me fez desistir várias vezes de trocar a maçaneta.

Também já pensei em relaxar e ignorar a porta aberta por uns instantes. "Ah, quando eu estiver a fim, vou lá e tranco. Ninguém vai colocar a mão na minha porta pra ver se ela está destrancada..." Só que, enquanto não passo a chave, não consigo me desligar disso. Fico agoniada. Tão agoniada quanto fiquei olhando para a porta do 905. A moça nem se mexeu.
Ou tava muito doente, ou é muito desligada. Ou, então, tem dessas maçanetas que não giram do lado de fora. E eu aqui... perdendo o meu sono à toa.

sexta-feira, dezembro 10, 2004

Nossos queridos animais

O cachorrinho do 1.007 está pulando que nem maluco. A mulher está aos berros com o marido. Um vidro de remédio na mão, lágrimas nos olhos, agenda de telefone aberta. O caso é o seguinte: o remédio é fortíssimo, tarja preta, e o animal ingeriu, pelo menos, uns três. Não há colo que faça o cachorro sossegar. Pelo jeito, foi o cara que deixou o vidro largado, ao alcance do incansável cãozinho. Ele (o marido) está agora ajoelhado, com um pires de leite na mão, tentando reverter o quadro evidentemente alucinógeno do bicho. O cachorro não tá nem aí. Recusa o leite solenemente. Tá louco mas ainda não pensa que é gato.

Tive poucos bichinhos de estimação quando era pequena. Uma tartaruguinha que ficou com o casco mole, um peixe que morreu de tanto comer, um canário chamado Dersara e a Greta Garbo, vira-lata de olhos azuis. Destruiu o sofá da minha mãe e foi mandada pra uma chácara, onde passou os restos dos dias caçando galinhas.

Já adulta, resolvi comprar um Beta. Peixinho solitário, bonito, prático. Só dar comida e, de vez em quando, irritá-lo com um espelho. O pobrezinho pensa que a imagem é um inimigo e fica pronto pra guerra, superbonito, com as barbatanas abertas. O meu chamava Hermeto. Era branco, albino.

Um dia, cheguei em casa e ele estava quieto, sem vida, paradão no canto do aquário. Preocupada - e tendo que agüentar a chacota dos meus pais -, liguei para o veterinário. Confesso que peguei o telefone sem muita fé, mas, como legítima mãe do meu peixinho, senti que essa era a minha obrigação. Cinco minutos de conversa e tudo estava resolvido. Catei o abajur mais próximo e coloquei a luz em cima do aquário. Hermeto estava com frio. Depois de meia hora, já com a água morninha, meu lindo Beta branco voltava a nadar todo serelepe. Viva o veterinário. Viva a lista telefônica. Eu não saberia conviver com a culpa de ter matado um peixe de frio.

***
A moça do 1.003 acabou de estender uma toalha vermelha no chão da sala. Espalhou umas cartas e está tirando a sorte. Mexe daqui, mexe de lá, ela fecha os olhos e se concentra. Vira uma carta. Franze a testa e abre um livro grosso, com uma mulher desenhada na capa. Vira outra carta e mais outra. Larga o livro num gesto de desilusão. Não foi dessa vez que o oráculo disse o que ela queria ouvir. Levantou e foi pra cozinha fazer brigadeiro.

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Hora da novela II - a missão
Conversando com um amigo meu sobre a hegemonia das novelas, ele lembrou de uma história muito boa, também da empregada de um colega dele. Toda noite, ela se juntava à família reunida em frente à TV. Em um capítulo crucial, os outros insistiam em atrapalhar a concentração da moça com comentários do tipo: "Imagine, que bobagem..."; "Ridículo esse enredo..." e "Só em novela para acontecer uma coisa dessas". De repente, a moça se irritou e disparou: "Se não é para acreditar, pra que é que assiste?" Falou e disse!

quarta-feira, dezembro 08, 2004

Hora da novela

Ontem, foi um dia importante na novela das oito (que sempre começa às nove). Uma cena esperada e anunciada aos quatro ventos - claro que eu e o país inteiro já sabíamos o que ia acontecer, estava em todos os jornais. Mas ver na TV é diferente.

A expectativa era tão grande, que parei em frente à televisão, de pé, para assistir ao desfecho da trama. Foi aí que olhei para o lado e me deparei com o casal do 903, na mesma posição que eu. No momento em que percebi a cena, fui flagrada pela mulher. Ficamos ali uns cinco segundos, sem jeito, sem poder disfarçar a indiscrição de janelas tão próximas. Abandonei a novela e fui para a cozinha.

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O horário da novela é sagrado. Passo os olhos pelas janelas e só o que encontro são aparelhos de televisão sintonizados no mesmo canal. Na televisão gigantesca do 801 ou no tímido aparelho do andar de cima, as atenções estão voltadas para os artistas globais. Daria uma tese sobre a hegemonia de uma emissora. E sobre as diferentes formas de recepção da mensagem: tem gente que senta sempre no mesmo lugar, outros aproveitam para jantar assistindo novela. Existem malucos (e não sou só eu!) que ficam de pé, tensos, sem perder nenhum detalhe.

A empregada de uma amiga minha colocava perfume e se penteava toda. Era a hora do encontro dela com os galãs. Sentava bem pertinho da TV e ficava quietinha, como uma espectadora de teatro, que não quer tirar a concentração dos atores. Um dia, minha amiga disse a ela que aquela caixa prata não era um palco, que não havia ninguém ali dentro e que, portanto, ela podia maneirar no perfume, a essa altura espalhado pela casa inteira. A empregada fechou a cara para a minha amiga e fez shhhhhh! Olhou novamente para a televisão e deu um sorrisinho sem graça, meio que pedindo desculpas ao Fábio Assunção e à Cláudia Abreu pelas maluquices da patroa.

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Meus vizinhos parecem atores de novela, limitados a uma caixa, uma história. De certa forma, me sinto como a empregada da minha amiga, sentada em frente a um pedaço de vida. Assisto a tudo quieta e perco a noção do limite entre o real e o imaginário. Pelo menos, ainda não tô na fase do perfume.

domingo, dezembro 05, 2004

A mala

Cheguei de viagem há uns quarenta minutos. Largada no sofá, com a mala no chão, sem coragem de desfazê-la. Às vezes, demoro quase uma semana pra guardar as coisas. Coloco as roupas sujas pra lavar e deixo o resto dentro da mala. Vira uma extensão do meu armário. Se eu preciso de alguma coisa que tá lá dentro, abro e pego. Se não, fica tudo como está.

Em dias de questionamentos filosóficos, fico pensando se faço isso por preguiça ou por não querer aceitar o fim da viagem. Em dias normais - quase todos -, tenho a certeza de que é pura preguiça mesmo.

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Tocando no assunto, todo mundo tem seu dia de mala. Eu tenho vários. Reconheço e, para amenizar minha situação na hora do acerto final, costumo ser bem tolerante com os outros malas que aparecem na minha vida. Tolerante como um amigo meu que, mesmo eu tendo sido muito mala no dia em que nos conhecemos, continuou meu amigo.

Estávamos num casamento. Eu, cansada, tinha ido direto do trabalho e estava incomodada por ser a única mulher do recinto que não havia passado num salão de beleza antes do evento. Passei a festa inteira sentada. Altas horas da noite, todos sentados à mesa, luzes acesas, fim de festa decretado. O moço se aproximou e me chamou para dançar.

Sem chances. Sou tímida, estava deslocada, não tava a fim. Disse que não ia. Ele insistiu. Minha amiga casamenteira me deu um chute na canela, quase me empurrando pra fora da mesa - afinal, ele era o maior gatinho. Continuei dizendo não. A mesa inteira olhando. Eu dizendo não. E ponto final. Mala sem alça, eu? Não. Baú. E cheio de correntes, pra ficar bem pesado.

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Abri as cortinas. Aparentemente, tudo normal. A não ser no apartamento 803, que tá vazio, com um cartaz de "Aluga-se". Os caras já saíram? Era uma mudança que eu queria ter acompanhado. Nesse apartamento, vivia um casal homossexual. O lugar era lindo, superbem decorado. Os dois sempre fumavam juntos, na janela. Ficavam apoiados no peitoril, conversando como se tivessem acabado de se encontrar. Entre uma tragada e outra, sorrisos e olhares de cumplicidade. Muito legal.

Eu não podia ter perdido o encaixotamento das coisas! Com certeza, eu ia ter acesso a um monte de objetos e histórias que não ficam expostas no dia-a-dia. Aquelas coisas que parecem não ter importância, mas que quando a gente vê, não tem coragem de jogar fora, tamanha a importância delas. Que pena...

Mas, em vez de me lamentar por conta das coisas que deixei de ver em uma semana, vou me concentrar naquilo que eu ganhei durante os dias em que passei fora. Afinal de contas, em algum momento, a MINHA vida tem que ser mais importante do que a dos outros, né?

Só uma observação... O que faz um ser humano - e, portanto, racional - pregar um cartaz do tamanho de uma folha de caderno no oitavo andar de um prédio, com telefone de contato da imobiliária? Será que os binóculos estão mais populares do que eu pensava?

quinta-feira, dezembro 02, 2004

Perto do céu

Mesmo viajando a trabalho, resolvi tirar férias de algumas coisas. Entre elas, das janelas. Ao entrar no hotel, fiquei tentada a dar uma olhadinha nos vizinhos, mas achei um pouco demais. Com um mundo novo lá fora, não havia motivo para me limitar a uma veneziana - por sinal emperrada, difícil de abrir. Preferi sair pelas ruas, andando a passos largos, sem tempo para olhar pras pessoas. Acho muito bom andar assim em cidades desconhecidas. É uma forma de sentir o clima do lugar e acabar pulsando junto com aquela gente ligada no piloto automático.

Quando fui para Nova York, meu programa favorito era pegar uma daquelas ruas numeradas e acelerar. A pé, claro. Sem dar pinta de turista. De vez em quando, eu esbarrava em algum japonês perdido, com câmera na mão e torcicolo de tanto olhar para cima. Sim, porque, já dizia Tom Jobim, Nova York é uma cidade para se andar de maca, deitado, observando os magníficos arranha-céus.

***
Eu não estava em Nova York, mas ontem tive que encarar um arranha-céu. O problema é que não sou muito fã de elevador. Aquela caixinha fechada não me agrada, principalmente se não tiver janela. Não é fixação pelo assunto, é verdade mesmo. Fico muito mais tranqüila naqueles elevadores com um vidrinho, através do qual eu posso acompanhar os andares passando.

Como não desenvolvi ainda técnica melhor do que usar elevadores para chegar 26 andares acima, tive que apelar para o Seu Wilson, o ascensorista do arranha-céu. Já em idade avançada, o Seu Wilson é do tempo em que ascensorista ficava dentro do elevador, acompanhando as viagens e cantando o número do andar. Com a modernidade e a fatal redução de custos, o Seu Wilson teve de deixar o sobe-desce e ocupar uma cadeirinha atrás de um balcão, observando a tela de um computador que mostra o movimento de luzinhas simulando os elevadores.

Pois bem. Lá estava o Seu Wilson, entediado com tanta luz subindo e descendo (o prédio tem 12 elevadores). Cheguei perto dele. "O senhor poderia me acompanhar até o vigésimo sexto?". Seu Wilson fez cara de desdém. "A senhora tem medo de elevador?" Sorri e disse que sim. E, gentilmente, deixei claro que estava atrasada para uma reunião e não ia dar para encarar os mais de seiscentos degraus que me separavam dos colegas de trabalho.

Depois de fazer um charminho, Seu Wilson caminhou todo orgulhoso até a última máquina. Entramos no elevador e, durante a viagem, ele virou para mim e perguntou: "Mesmo se tivesse outra pessoa no elevador, a senhora precisaria de ascensorista?". Era a deixa para ele ganhar o dia. "Claro. Uma pessoa qualquer não poderia me ajudar como o senhor pode". Tive a impressão de que o elevador deu uma leve tremida. Era o ego do Seu Wilson, um pouco mais pesado.

quarta-feira, dezembro 01, 2004

Pílula da viagem

Quando o avião subiu, tinha tanta nuvem, tanta nuvem, que me arrependi de ter escolhido sentar perto da janela. Aquela visão estava assustadora. Olhei para o assento do corredor, confortavelmente ocupado por um senhor de bigode engraçado. Por que não fiquei com o corredor?? Eu sei... Porque a vida é feita de escolhas, a gente tem que lidar com o caminho que quis seguir etc e tal. Além do mais, tenho a opção de fechar a janela e esperar as nuvens se dissiparem, certo?

Nem precisei fazer isso. De repente, o céu ficou mais claro. Enganou-se quem concluiu que as nuvens saíram do lugar. Quem saiu foi o avião. Não é incrível? Olhando pra baixo e vendo aquele "chão" de nuvens, percebi que o assento na janela foi a opção certa. Isso pode se transformar em uma lição de vida!

Em vez de aproveitar a "descoberta" e começar minha carreira como escritora de auto-ajuda (caminho fácil para o enriquecimento), lembrei da primeira vez em que viajei de avião. Eu tinha uns quatro anos e estava acompanhada da sogra do meu pai - que já não era mais a minha avó. Apreensiva, dei uma espiada pela janela e me espantei. "Eu pensava que as nuvens eram grudadas no céu!", foi a frase que eu soltei e que virou assunto nas conversas de família. Ainda bem que não são e que a gente pode passar por elas.