Lá fora está chovendo...
Hoje, inverti os papéis. Passei de observadora a observada. Eles, nas janelas. Eu, na rua, sozinha. Ou melhor, eu e a chuva. Tomei uma chuva como há tempos não tomava. Eu estava no centro da cidade, num prédio desses inteligentes, que não têm janelas, não têm ascensoristas, não têm porteiros mas, dizem, têm neurônios.
Por conta de toda a inteligência do edifício, eu, burra, não percebi que estava chovendo. Não dava para ouvir o barulho da água caindo. Eu me aproximei da porta do prédio e ela já foi abrindo, toda esperta. Nem pestanejei. Saí decidida. Tomei, literalmente, um banho de água fria. Estava chovendo horrores.
E aí, já era tarde. Minha postura de mulher independente, apressada e determinada não me permitiu voltar para debaixo da laje. Continuei caminhando, passo um pouco mais apertado, firme e forte em direção ao carro. Carro este que não chegava nunca! Como eu pude estacionar tão longe?
No meio do caminho, tomei gosto pela brincadeira. Ergui a cabeça e fui curtindo os pingos enormes que me encharcavam. Foi quando vi um monte de vultos nas janelas. Todo mundo me olhando. Até fiquei com raiva no começo. Será que esse povo não tem mais nada pra fazer? Mas, depois, pensei... "Pobres mortais... Estão enclausurados em caixas de concreto, vendo a chuva cair. Por conta do ar condicionado superpotente e das janelas herméticas, não podem nem ouvir o barulhinho, que é o mais legal..."
Percebi que eu era uma privilegiada. Entrei no carro com um sorriso de criança. Desembacei o vidro e ainda dei uma olhadinha para os meus observadores. O que será que eles pensam de mim? Que sou uma azarada que parou o carro longe e se ferrou? Péim. Resposta errada. Que vou ficar doente por conta da água fria? Péim de novo. Resposta absolutamente equivocada. Que perdi a pose só porque estou parecendo um pinto molhado? Tsc, tsc...
Só vai acertar quem disser que eu fiquei feliz pra caramba com a água que veio do céu e quebrou a minha rotina. Ainda bem que eu não faço escova no cabelo. Ainda bem que eu não estava de blusa branca sem sutiã. Ainda bem que eu estava de sapato fechado. Ainda bem que a chuva caiu.
***
À noite, já em casa, de roupa trocada e bem quentinha, percebi que a chuva continuava caindo. Parei em frente à janela e me deparei com vários vizinhos na mesma posição. Todos prestando a maior atenção na dança da água com o vento. O interessante é que ninguém disfarça. Tá todo mundo na janela mesmo, parado, olhando pra fora. Coisa que não se faz em dia de sol. Talvez seja porque a chuva tem um movimento diferente, que merece ser admirado. Talvez. Mas, pra mim, o que acontece é o afloramento de um hábito que todos têm e poucos assumem: o de observar os outros. Em dias chuvosos, a água vira uma espécie de cortina, através da qual as pessoas podem espiar a vida lá fora, sem medo de serem flagradas.
