Perto do céu
Mesmo viajando a trabalho, resolvi tirar férias de algumas coisas. Entre elas, das janelas. Ao entrar no hotel, fiquei tentada a dar uma olhadinha nos vizinhos, mas achei um pouco demais. Com um mundo novo lá fora, não havia motivo para me limitar a uma veneziana - por sinal emperrada, difícil de abrir. Preferi sair pelas ruas, andando a passos largos, sem tempo para olhar pras pessoas. Acho muito bom andar assim em cidades desconhecidas. É uma forma de sentir o clima do lugar e acabar pulsando junto com aquela gente ligada no piloto automático.
Quando fui para Nova York, meu programa favorito era pegar uma daquelas ruas numeradas e acelerar. A pé, claro. Sem dar pinta de turista. De vez em quando, eu esbarrava em algum japonês perdido, com câmera na mão e torcicolo de tanto olhar para cima. Sim, porque, já dizia Tom Jobim, Nova York é uma cidade para se andar de maca, deitado, observando os magníficos arranha-céus.
***
Eu não estava em Nova York, mas ontem tive que encarar um arranha-céu. O problema é que não sou muito fã de elevador. Aquela caixinha fechada não me agrada, principalmente se não tiver janela. Não é fixação pelo assunto, é verdade mesmo. Fico muito mais tranqüila naqueles elevadores com um vidrinho, através do qual eu posso acompanhar os andares passando.
Como não desenvolvi ainda técnica melhor do que usar elevadores para chegar 26 andares acima, tive que apelar para o Seu Wilson, o ascensorista do arranha-céu. Já em idade avançada, o Seu Wilson é do tempo em que ascensorista ficava dentro do elevador, acompanhando as viagens e cantando o número do andar. Com a modernidade e a fatal redução de custos, o Seu Wilson teve de deixar o sobe-desce e ocupar uma cadeirinha atrás de um balcão, observando a tela de um computador que mostra o movimento de luzinhas simulando os elevadores.
Pois bem. Lá estava o Seu Wilson, entediado com tanta luz subindo e descendo (o prédio tem 12 elevadores). Cheguei perto dele. "O senhor poderia me acompanhar até o vigésimo sexto?". Seu Wilson fez cara de desdém. "A senhora tem medo de elevador?" Sorri e disse que sim. E, gentilmente, deixei claro que estava atrasada para uma reunião e não ia dar para encarar os mais de seiscentos degraus que me separavam dos colegas de trabalho.
Depois de fazer um charminho, Seu Wilson caminhou todo orgulhoso até a última máquina. Entramos no elevador e, durante a viagem, ele virou para mim e perguntou: "Mesmo se tivesse outra pessoa no elevador, a senhora precisaria de ascensorista?". Era a deixa para ele ganhar o dia. "Claro. Uma pessoa qualquer não poderia me ajudar como o senhor pode". Tive a impressão de que o elevador deu uma leve tremida. Era o ego do Seu Wilson, um pouco mais pesado.
