Indiscreta Janela

quinta-feira, novembro 18, 2004

Um mês depois...

Outro dia, abri a porta com um monte de correspondências e me dei conta de uma coisa. Estou no novo apartamento há um mês e essa já é a minha casa. Minhas cartas chegam aqui, é para cá que eu volto todos os dias e dou aquele suspiro de alívio, como se tivesse chegado ao porto seguro. Porto que, há pouco mais de um mês, era estranho para mim. Eu nunca tinha passado perto desse prédio. Nunca tinha reparado na vida que as pessoas vivem aqui.

E agora, trinta e poucos dias depois, eu e meus vizinhos temos uma porção de história pra contar. Já acompanhei bebedeiras, namoros, crises, comemorações. Coisas inconfessáveis, que a gente só faz quando tranca a porta da rua. Como pequenas manobras para arrumar marido...

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Isso acontece com a garota do 805. Ela está com uns 24 anos. Mora com outra moça, que deve ser parente, porque as duas são muito parecidas. No aparador da sala, um verdadeiro culto ao namorado. Fotos de todo jeito - até do rapaz quando era bebê, com um enorme coração desenhado com canetinha vermelha, com a frase "nossos destinos foram traçados na maternidade".

Só que o destino não tá favorecendo muito. A moça tá louca pra casar e, pelo jeito, não consegue marcar a data. No canto esquerdo do quarto, atrás de um móvel, está o pobre coitado do Santo Antônio. O bichinho está pendurado num barbante, de cabeça para baixo. De vez em quando, minha vizinha vai lá, pega o santo. Eu respiro aliviada. Enfim ela vai dar um descanso pra ele. Que nada... Sem pestanejar, a moça tranca o santo no congelador ou arranca o bebê que ele tem no colo. Para não dar bandeira, todo cuidado é pouco. Cansei de vê-la correndo pela casa para esconder o santo antes de o namorado chegar.

Na noite passada, eles chegaram juntos (o casal, porque o santo tava de castigo). Ela estava relaxada, provavelmente por conta de umas bebidinhas a mais. Sentou no sofá e pediu mais uma dose. Esqueceu que a Absolut estava no congelador, ao lado do Santo Antônio. O namorado foi até a cozinha, abriu a porta da geladeira. Em vez de pegar a garrafa, pegou o objeto esbranquiçado. Sacudiu, analisou, deu uma rápida olhada para a sala. A moça estava de olhos fechados, cantarolando. O rapaz colocou o santo exatamente no mesmo lugar, tirou a vodca e fechou o congelador, como se nada tivesse acontecido. Santo de casa não faz milagre.

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Tem vizinho novo no pedaço! O casal do 1.007 comprou um cachorro. Latido forte, inversamente proporcional ao tamanho. Há uns quarenta minutos, os dois marmanjos estão babando com as gracinhas do filhote. Ele é fofo mesmo. E uma ótima oportunidade para eu tentar entender o mundo dos cães, já que o dos homens está difícil.