Ninho de Estranhos
Há três dias, o mesmo caminho: da mesa da sala à janela, da janela à mesa da sala. É assim que o senhor do 903 está. Ele não é de casa. É pai da moça que mora lá. Imagino que não more na cidade. Está passando uns dias por aqui, para curtir o neto e o jovem casal. Só que ele se sente estrangeiro. A forma como anda de um lado para o outro, o olhar perdido, buscando paisagem onde só se vê concreto, tudo isso tem um ar de "não sou daqui". Ele tá deslocado. Como diz meu pai, "mais perdido que cego em tiroteio".
Tem vezes que a gente fica assim, completamente fora do lugar. Nem as mãos encontram lugar. A gente fica meio sem jeito, não sabe se cruza os braços, se balança a perna ou se anda de um lado para outro. Chego a me identificar com aquele senhor. Ele, como eu, usa a janela como fuga. Olha para fora, toma um ar e volta para o lugar estranho. É como se o lado de fora não pertencesse a ninguém, deixando todo mundo à vontade.
O senhor agora está à vontade. Está lembrando de alguma coisa, os olhos voltados para cima. Li isso em algum lugar: se a pessoa olha para cima, é sinal de que está acessando a memória; se olha para determinado lado, é sinal de que está mentindo (fiz questão de esquecer qual é esse tal lado, para evitar decepções...). Enfim... remexendo num baú empoeirado, guardado no fundo do cérebro, o senhor sorri. Naquele lugar estranho, acaba tendo um encontro com o passado tão familiar. O senhor do 903 volta para dentro do apartamento com a certeza de que a vida vale a pena.
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Falando em lembranças do passado, nos idos de 1960, o tio de um amigo meu provou que só tinha olhos para a mulher dele. Em um baile de carnaval, quando a noite ainda era embalada por marchinhas, chegou distraído perto do filho e da moça mascarada que estava ao lado. Todo galanteador, ensaiou o melhor sorriso e perguntou se o filho não ia apresentar a bela morena. Tentando consertar o estrago, o filho cochichou: "Pai, é a mamãe!". Até hoje, isso dá briga nos almoços de família.
