Indiscreta Janela

quarta-feira, outubro 20, 2004

Dia de Gisele

Chegou um convite na casa da moça do 905. Festa de uma das revistas de moda mais badaladas do mundo. Há mais ou menos quarenta minutos, a moça está estática, em frente ao guarda-roupas. Das quinhentas e sessenta e nove peças guardadas no armário, nenhuma combina com a festa. Desesperada, ela corre pro computador e dá uma checada no extrato bancário. Decidida, pega as chaves do carro e bate a porta.

***

O apartamento do sétimo andar está uma bagunça. Um monte de peças espalhadas pelo chão, ferramentas, porcas e parafusos. No meio de tanto ferro (velho), um homem perdido, com as mãos desengonçadas. A esquerda está segurando um chuveiro. A direita, uma ferramenta não identificada por essa jovem leiga, que incentiva o trabalho informal e dá vivas aos bombeiros, eletricistas e todos os outros eiros e istas que nos socorrem em momentos de iminentes desastres domésticos.

Com as mãos ocupadas, o homem se curva para ler uns papéis que estão no chão, entre as pernas dobradas. Consigo identificar um tremor. Raiva, estresse, medo, nervosismo? Talvez seja pressa. Quanto mais rápido ele resolver aquele problema, menos riscos corre de ser desmascarado. Ele não sabe mexer nessas coisas! Só que, desde a sua remota infância, ELE foi criado para saber. Para resolver. Para ser o homem da casa. Por quê? Porque ele é ELE, oras... Assim como a irmã dELE é ELA, e liga pra ELE toda vez que precisa apertar um parafuso ou mexer no carro.

Atormentado por não conseguir consertar o chuveiro elétrico, o homem nem percebe que está sozinho em casa. E que pode abrir a lista telefônica e encontrar ajuda sem ninguém saber. Não existem olhares reprovadores. Nem as fotos da família, no aparador da sala, representam uma ameaça. Ele não percebe que faz parte da sua função de homem buscar a melhor solução, mesmo que seja contratar uma mulher especialista em termostato. Resolve tomar banho gelado, pra esfriar a cabeça. Antes de sair da sala, porém, dá uma olhada rápida para a foto da mãe, que continua sorrindo e orgulhosa do filho homem.

***

A moça do 905 acabou de voltar. Tá com duas sacolas na mão. Certamente, comprou a roupa para ir à festa. Se bem que... as sacolas são de uma loja de departamentos. Ela não iria a uma festa chiquérrima com roupas da C&A... ou iria?? Ajeito o binóculo para observar o exato momento em que a nossa heroína tira de uma das sacolas um pedaço de pano preto, molinho. Na verdade, esse pedaço de pano saindo da sacola branca é um pretinho básico bem lindo. Da outra sacola, sai uma sandália, salto agulha, tiras pretas.

Sim, a moça comprou as roupas da noite na C&A. Depois de uma produção rápida, lá estava ela, linda, maravilhosa e com um sorriso no rosto - além da maquiagem caprichadíssima, claro. Essa é a vingança de todas as mortais: a moça que um dia, por obra do destino, recebe um convite para entrar no mundo dos descolados, fashion e poderosos, e vai à festa com uma roupa de loja de departamento. Se bobear, a compra foi dividida em dez vezes no cartão da loja - aquele que você tem que ir ao shopping para pagar a fatura e acaba comprando mais umas roupinhas divididas novamente em trocentas vezes, o que te obriga a ir à loja no mês seguinte, dar uma olhada nas novidades e... um círculo vicioso que só acaba no fim do ano - porque ninguém precisa passar perto do balcão do caixa da C&A em época de Natal!

***

No 1.003, um prato de sopa divide espaço com as flores, não tão bonitas quanto há três dias. A dona da casa também não está tão radiante. Parece esperar que a companhia das flores seja substituída pela presença de quem as mandou. Não vi quem mandou. Só vi a sopa. Esfriando enquanto a novela passa na TV.

***

São três horas da manhã. Da janela do meu quarto, posso ver as luzes acesas no 905. Lá está a moça, ainda produzida, um pouco descabelada e com um brilho no rosto de suor e alegria. Fez bonito com a roupa que jamais estaria nas páginas da badalada revista. Que bom. Durmo pensando que todo mundo pode ter seu dia de Gisele Bündchen.