Indiscreta Janela

sexta-feira, outubro 15, 2004

A vida dos outros faz parte da minha

Meu segundo dia de casa nova. Já estou há algumas horas no canto da janela, observando o prédio da frente. Tenho certeza de que esse prédio tem uma espécie de imã. Não consigo passar pela sala sem olhar para fora, mesmo que rapidamente. São tantas coisas acontecendo, pedaços de histórias, sorrisos e caretas que eu insisto em decifrar. O caso é grave. Coloquei, como quem não quer nada, um banquinho estratégico ao lado da janela. Dele, posso espiar à vontade, confortavelmente. Se o olhar de alguém cruza com o meu, desvio rapidamente para a minha TV, posicionada estrategicamente para os momentos de pânico.

Os apartamentos do lado de lá não são grandes. Daqui, posso ver dois quartos, sala e cozinha. Meus vizinhos são famílias pequenas, casais, solteiros. Tenho a impressão de que, quanto menor a casa, mais agitada a vida. O carinha do 807, por exemplo, não pára. De ontem pra hoje, já entrou, saiu, entrou, saiu, entrou, saiu. Cada hora com uma roupa diferente. Para onde será que ele vai? Tento buscar pistas... Observo o tipo de roupa que ele veste e o que carrega. Ontem à noite, foi fácil. Ele foi pra balada, todo engomadinho, cabelo penteado, blusa preta. "Ô, carinha do 807! Você podia ser mais ousado, hein? Colocar uma camisa rosa, deixar o cabelo mais natural..." Amo homens de camisa rosa. Pra mim, é uma prova de masculinidade. O cara tem que ser muito macho pra sair de camisa rosa e, ainda assim, arrasar. Sou fã.

Mas, voltando ao nosso amigo do oitavo andar. Chegou tarde da balada - tão tarde que eu nem vi. Hoje de manhã, obviamente, tava de ressaca. Como eu sei? Elementar. Virou uma garrafa d'água, que tirou da Consul Slim. E fechou os olhos com cara de dor na hora que a luz da geladeira acendeu. Puta dor de cabeça, meu! (Pelo estilo do rapaz, concluí que ele é paulistano da gema. Por isso, deve falar "meu", né?) Largou a garrafa na pia e saiu. Sim, saiu! E sequer trocou de roupa. O cara foi embora de pijama (xadrez, ainda por cima). Voltou com um pacotinho na mão. Ah, foi à farmácia... Estou ficando boa em decifrar a vida dos outros! Fechou as cortinas, ok... Vamos esperar a dor passar...

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A moça do 1.003 está pulando que nem uma doida em casa. Acabou de receber flores. O porteiro foi lá deixar. Por questões de segurança, o entregador da floricultura não pode subir. Deve ser chato isso. O pobre coitado do entregador passa o dia inteiro andando pra cima e pra baixo com flor pra cá, flor pra lá, e não pode nem ver a cara de boba da pessoa que recebe o regalo... E que cara de boba a moça fez! Divertido. Colocou as flores em cima da mesa, não pára de olhar pra lá. E o telefone pendurado na orelha, claro, que é pra contar para TODAS as amigas o que aconteceu.

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A dor de cabeça do rapaz deve ter desaparecido. Ele já está de bermudinha de lycra, camiseta justa e tênis com molinhas na sola e zíper no lugar do cadarço (como diria um amigo meu, hum... essa Coca é Fanta...). Não acredito. O cara vai pra night, bebe todas, acorda de ressaca, tem coragem de ir à farmácia de pijama e ainda vai correr! Preciso encontrar esse cara lá embaixo, na padaria, trocar uma idéia, tentar entender essa criatura. O que será que ele faz? Tento enxergar as tranqueiras que ele tem no escritório, mas não dá. "Ei, moço do 807! Me dá um desses remedinhos que você comprou. Já tô com dor de cabeça de tentar decifrar sua vida!". Se eu tivesse um binóculo, seria mais fácil...

Lembrei que tenho de sair pra comprar coisas fundamentais para minha sobrevivência. Um biquini, um sapato pra trabalhar, linha, agulha, um caderno, garrafinha de água pra levar pra academia e bateria pro meu despertador. Onde eu vou encontrar tanta coisa diferente? Ah, já sei. Tem um shopping que minha prima indicou no lado norte da cidade. É um pouco longe, mas tem de tudo. Parece até que tem binóculo...