É o bicho!
Sábado de manhã. O sofá cheio de tralhas, sacola de plástico, sacola de papel, caixa. Nada como uma ida ao shopping depois de uma mudança... Não faltam desculpas para entrar em tudo que é loja, comprar tudo que é bugiganga. E coisas bem importantes também. Como o meu binóculo.
Não sou bisbilhoteira, fofoqueira etc. Estou em plena pesquisa antropológica! Anos de faculdade devem ter servido para alguma coisa. Minhas observações são o ponto de partida para uma megapesquisa que ainda publicarei nessas revistas especializadas bem chiques. E que, dias depois, vai se tornar matéria na Folha: “Solteiros fazem refeições com os pés na cadeira, diz pesquisa”.
Sim, porque isso é fato! Todos os meus vizinhos que moram sozinhos sentam em uma cadeira e esticam as pernas na cadeira em frente. Estranho, né? Deve ser a ausência do opressor (mãe, marido, papagaio) que deixa a pessoa mais à vontade, querendo transgredir e botar o pé no estofado, sim, e daí??
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Tem doido pra tudo. Acho muito divertido esse povo que faz aula de ginástica em vídeo – ou DVD pros mais moderninhos. Lá está a moça do 605, na maior ralação, fazendo um monte de movimento maluco, em frente à televisão. Deve ser o vídeo da Jane Fonda, no mínimo! Caramba, a menina ainda faz aqueles exercícios de cachorrinho, para endurecer o bumbum!!! Ta lá, de quatro, levantando e abaixando a perna esquerda. De vez em quando, desequilibra e se apóia nos cotovelos. Ajeita o cabelo, preso com uma faixa tipo “Madonna Procura-se Susan Desesperadamente”.
Isso me lembra as aulas de educação física. Sempre odiei. Passava com 8,5 em química e biologia, mas ficava de recuperação em educação física! Exercícios chatos, difíceis, mico na frente dos gatinhos da sala, que jogavam futebol superbem e eram brothers dos professores. Nas aulas de vôlei, eu tremia só de pensar na dor daquela bola batendo nos meus braços, numa tentativa frustrada de dar uma manchete. Me sentia desengonçada, fraca, sem aptidão. Até que...
... bem... até que fiquei bastante brother do meu professor de educação física. Eu tinha 17. Ele, 27. Ele cantou no meu ouvido “há tanto tempo que eu te quero do meu lado, nossos caminhos não haviam se cruzado...”, que, pra quem não lembra, não é uma balada romântica, e sim a batida “É o bicho, é o bicho, vou te devorar, crocodilo eu sou”... Pois é... E foi assim, sem romantismo, com um cara dez anos mais velho, que me devorou e se mudou pro Tocantins... foi assim a minha primeira vez.
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Antes que eu me esqueça: as flores da menina do 1.003 estão lindas! Tive um namorado que dizia que só as flores dadas com amor ficavam bonitas e não murchavam. Depois de uma briga feia, ele me deu uma flor de madeira, pra não correr riscos...
