Se beber, não dirija
Meu vizinho do 707 tá ajoelhado na sala, com as mãos pra fora da janela, cantando Norah Jones. De vez em quando, dá uns berros. “Don’t know why I didn’t come...” Bêbado de dar dó...
Dois amigos estão sentados no sofá, com dor na barriga de tanto rir. Também estão meio “altos”, mas não naquela situação periclitante. Bebida tem disso. Existe um limite. Até certo ponto, você se diverte com os outros. Depois que você ultrapassa determinada barreira, aí, meu amigo... já era... Você se transforma na diversão.
A diferença mais gritante entre quem ultrapassou o limite e quem conseguiu se segurar é a memória. Enquanto você, morrendo de ressaca no dia seguinte, só lembra de flashes da noite anterior, seus amigos fazem questão de não esquecer nenhum detalhe. E as lembranças duram anos... Você vira assunto de todos os encontros. Se vai apresentar uma namorada nova pra galera, pode se preparar. Algum infeliz vai vir com aquele papo: “Ele já te contou do dia em que o vendedor de ostras se apaixonou por ele?”...
Uma vez, meu primo estava em casa, assistindo televisão com a namorada, quando o telefone tocou. Era o irmão dele, pra lá de Marrakesh.
- Tô bêbado, não vou dirigir. Vem me pegar.
Meu primo ficou até feliz. “Caramba, meu irmão é um cara consciente. Não vai se arriscar no trânsito. Legal.”. Enquanto ele pensava, o outro estava com pressa.
- Vem logo, que eu tô com frio e com sono!
- Beleza, onde você tá?
- No orelhão, porra!
E desligou.
Meus primos moram em Brasília. O Plano Piloto deve ter uns 300 orelhões.
