Indiscreta Janela

domingo, outubro 24, 2004

Branca de Neve e os mil anões

Domingo sempre é dia de festa de criança. E dia também de os vizinhos não terem sossego. Nesse fim de semana, presenciei um duelo. O salão de festas do meu prédio foi ocupado pela Branca de Neve, os sete anões e sua patota - formada por mais de quarenta pirralhos fofinhos e barulhentos. No prédio em frente, os opositores: uma espécie de Power Rangers, acompanhados de uma legião de crianças, com as cordas vocais ainda mais saudáveis do que as que ocupam o lado de cá da trincheira.

Mau humor à parte - quem não fica, com esse barulho insuportável????? -, aniversário de criança é sempre uma porta para os sonhos. No pátio do prédio, o fotógrafo conversa com a dona da festa, devidamente vestida de princesa, com uma cestinha cheia de maçãs (ué... não é a bruxa que carrega as maçãs?). A sessão de fotos vai começar. A menina sorri, meio encabulada, olha de rabo de olho para as amigas. Em um segundo, capta não só a aprovação das outras garotas, como uma certa inveja. Fica mais segura, encara a câmera e dá asas à imaginação.

Enquanto faz pose, a aniversariante pensa no príncipe encantado, sonha com o conto de fadas. Ainda em transe, a pequena Branca de Neve é atingida por um pacote de lembrancinhas do Power Rangers. É que o dono da outra festa jogou o último pacotinho pelos ares, para que o amigo não pudesse trocar o carrinho azul pelo aviãozinho vermelho. Branca de Neve olha com ódio para o batalhão de meninos suados e descabelados e faz uma promessa. Nunca, nunquinha, ela vai trocar o Príncipe por um desses trastes. "Odeio garotos!", ruge. Como se o príncipe não fosse garoto...

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Quantas Brancas de Neve já fizeram essa promessa? E quantas não se apaixonaram perdidamente por um traste que, nem com mil beijos, tem chances de virar príncipe? Acho que o cara do 701 é um desses sapos que andam por aí, destruindo corações. O apartamento tem altíssima rotatividade. A cada dia, uma mulher diferente. Bonitas, charmosas, roupas legais.

O cara faz tudo como manda o figurino, passo-a-passo. Coloca o CD, acende a luminária do canto da sala, vai para a cozinha e volta com a bebida. Vinho, vodca, cachaça, depende da personalidade da mulher. Beijo pra cá, beijo pra lá e... cortina fechada. No dia seguinte, nem rastro da moça. O garanhão já tá pronto pra outra. De vez em quando, recebe uns presentinhos, bicho de pelúcia, cesta de café-da-manhã, flores.

Hoje foi um dia diferente. Às oito da noite, ele já estava pronto. Visual despojado, do tipo "acabei de chegar e tomar um banho". Puro estilo. Ficou um tempão em frente ao espelho, passando a mão no cabelo e puxando a blusa, pra ela ficar solta. A moça só apareceu depois das dez. Chegou com um CD na mão, colocou a música que queria, abriu a geladeira, bebeu água com gotas de limão. Conversou, riu, passou a mão no rosto dele. Recebeu um telefonema, deu um beijo superquente no rapaz e foi embora. Simples assim.

O moço do 701 tá atordoado até agora. De vez em quando, vai pra janela e olha pro céu. Uma mulher dessas, em plena época de princesas desiludidas em busca de algum encanto, só pode ser de outro planeta.

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As flores do 1.003 já estão totalmente murchas, mas não saem da mesa. Tem até uns mosquitinhos passeando por lá. Quem foi rei nunca perde a majestade.