Vida em frestas
Estou sentada no sofá, com alicate, lixa de unha, esmalte e uma boa dose de contorcionismo para tirar cutículas do pé. Televisão ligada, falando para ninguém. Não sei o que acontece com os programadores de TV, que parecem programados para colocar coisa ruim no ar durante o final de semana. Não acertam nunca. É só seriado chatinho, programa de auditório batido, filmes de mil novecentos e bolinha. Mas o barulho da TV vicia, principalmente quando se mora sozinho. Preenche o espaço, apesar de não acrescentar nada.
A janela está aberta, mas a cortina está fechada - o que é péssimo, porque vem o vento e a persiana fica batendo. O problema é que fico encabulada. Olha como são as coisas... Eu, que invado sem pudor a privacidade dos meus vizinhos, tenho vergonha de fazer o pé na frente deles. Na verdade, nem sei se mereço tanta atenção, mas não me sinto bem.
Quando o vento bate e a persiana abre um pouco, dou uma espiada rápida, para ver se não estou sendo observada. E, pelas frestas da persiana, vejo um pouco do que está acontecendo lá fora. Numa hora, vejo um pai embalando um neném. Quando a persiana abre de novo, ele já não está mais lá. Na outra janela, a moça do 1.003 chega. Tá de cabelo novo, de cor diferente. A persiana fecha. O vento volta e o cara do 901 acaba de derramar um copo de suco no sofá. Na janela de cima, um casal joga cartas. A persiana fecha. Depois abre. Depois fecha.
Percebo que a vida acontece assim, em frestas. Um almoço numa sexta-feira, em um restaurante vazio, é um pedaço de uma história. Um encontro no corredor do trabalho e um rápido comentário sobre a roupa da colega também são trechos de outra história. Nunca a gente consegue ver a história completa. Porque ninguém - nem mesmo eu, que sou tão indiscreta - deixa a janela totalmente aberta.
