Indiscreta Janela

quarta-feira, novembro 24, 2004

Os foras nossos de cada dia

Hora do almoço, sol batendo na janela. Enquanto a água do macarrão ferve (quando eu morava com meus pais, macarronada era prato de domingo... doces tempos...), uma movimentação no 705 me chama a atenção. A moça de lá está ao telefone, incrédula. Às vezes, grita. Outras, fala baixo, como se ninguém pudesse ouvir. Gesticula, coloca as mãos na cabeça, em desespero. Pára e fica olhando para o telefone - o interlocutor, a essa altura, já desligou.

Ela pega o aparelho sem fio e se debruça na janela. Eu me concentro, para ouvir trechos da conversa. Apesar do barulho da rua - movimentada com o entra-e-sai de pais e crianças que almoçam em casa -, consigo entender a história. A moça acabou de levar um fora de um zé ninguém. Um cara que não tinha a menor importância na vida dela e, por isso mesmo, ELA deveria tê-lo dispensado. Mas ele foi mais rápido.

O lamento da minha vizinha não é pela perda do cara, e sim pela perda de tempo. Ela daria tudo para ter de volta algumas horas e virar o jogo, mandando aquele "imbecil" (isso eu consegui ouvir pela janela!) pra bem longe, antes que ele pudesse pronunciar a temerosa frase "a gente precisa conversar".

***
Já levei uns foras engraçados. Foras de quem eu nem pensei em ter alguma coisa. Eu chamo de "toco antecipado". O cara já me dispensa antes de ouvir um óbvio "não". Uma vez, eu tava no shopping e meu celular tocou. Era um amigo do amigo do amigo, que pegou meu telefone com a amiga de outro amigo. Enfim... um cara que nunca trocou uma palavra comigo. Ele se apresentou, me chamou pra sair. Eu, muito educada, não tive coragem de dizer não. Falei pra ele me ligar depois. Ele ligou, eu nunca mais atendi.

Um belo dia, depois de umas dez chamadas não atendidas, resolvi parar de infantilidade. Virar mulher, atender o telefone e dizer "não, não tô a fim de sair com você". Pedi desculpas. Ele aceitou. "Não tem problema. Vamos combinar de jantar qualquer dia desses." E se adiantou na dispensada. "Mas, como estou saindo com outra garota, a gente só pode se encontrar se for como amigos, viu?"

Recebi outro toco antecipado numa lanchonete perto da minha antiga casa. Eu tinha voltado de férias, estava mais magra e bronzeada. Cheguei lá, o atendente mal me reconheceu. Quando fui pagar a conta, ele não resistiu. "Nossa, emagreceu, hein? Se você fosse o meu tipo, eu casava com você. Mas como você não é...". Ah, tá.

***
O cachorro do 1.007 virou atração turística. Incontável o número de visitas que ele recebe. A todo momento, a porta abre e os donos começam a assobiar. Lá vem o bichinho, todo serelepe, abanando o rabo e lambendo a mão de quem chega. Ele já está à vontade. Três pés de meia espalhados pela sala mostram quem é o dono do pedaço.

Ontem, não satisfeito em roer todos os pés da casa (os de meia, os da mesa, os das cadeiras...), o cãozinho caiu de boca no carregador de celular que tava conectado à tomada. Lutou até desencaixar o aparelho. O dono correu e conseguiu salvar a situação. Salvou o cachorro de um choque elétrico. Salvou o carregador de um triste fim. Deu um tapinha no bichinho de estimação, dizendo "não pode" e entregou uma meia novinha, pro cão se deliciar. A lua-de-mel continua, e sem data para acabar.