Pronto-socorro
Num dia de insônia, todas as luzes do prédio da frente apagadas, fiquei assistindo TV durante a madrugada. Depois de uma cochilada rápida no intervalo de um filme, percebi uma movimentação no 905. Luzes acesas, minha vizinha estava passando mal. Se apoiando nas paredes, com a mão na barriga, foi ao telefone pedir socorro.
Em meia hora, o apartamento era invadido por uma verdadeira equipe de resgate. Médico de jaleco e dois homens enormes, vestidos com um macacão azul. Pareciam mecânicos, na verdade. Deitaram a moça na cama, abriram uma maleta cheia de vidrinhos e começaram a preparar um coquetel de remédios. Não demorou muito para a moça estar com soro na veia. E um dos enfermeiros-mecânicos segurando o tubinho de soro no alto. Haja braço.
O médico preencheu alguns papéis, fez a moça assinar uma guia. Os três foram embora e a paciente continuou deitada, já com esparadrapo no braço e cara de chapada. Eu, do lado de cá, fiquei incomodada, pensando... e, agora, quem vai trancar a porta?
***
Essa é uma das coisas ruins de morar sozinha. Você SEMPRE tem que trancar a porta. Seu namorado dormiu na sua casa e resolveu sair de manhã cedo? Você tem que sair da cama quentinha e andar até a porta para trancá-la. Você está preparando o jantar e seus amigos resolvem ir ao bar, comprar a bebida que tá faltando? Você tem que largar a faca, passar uma água na mão e ir até a sala para trancar a porta. Sua manicure acabou de fazer sua unha e está indo embora? Você tem que fazer o maior malabarismo para trancar a porta sem esbarrar a chave no esmalte que ainda não secou.
Já pensei em colocar aquelas maçanetas que não giram do lado de fora. É só bater a porta e pronto, ninguém entra! Mas sempre me lembro do Homem Nu do Fernando Sabino, que deu uma escapadinha para fora do apartamento sem roupa e foi sacaneado pelo vento. A porta bateu e lá estava o homem nu, pelas ruas do Rio de Janeiro. É claro que nunca vou passear pelo corredor do prédio pelada, mas essa história já me fez desistir várias vezes de trocar a maçaneta.
Também já pensei em relaxar e ignorar a porta aberta por uns instantes. "Ah, quando eu estiver a fim, vou lá e tranco. Ninguém vai colocar a mão na minha porta pra ver se ela está destrancada..." Só que, enquanto não passo a chave, não consigo me desligar disso. Fico agoniada. Tão agoniada quanto fiquei olhando para a porta do 905. A moça nem se mexeu.
Ou tava muito doente, ou é muito desligada. Ou, então, tem dessas maçanetas que não giram do lado de fora. E eu aqui... perdendo o meu sono à toa.
