A mala
Cheguei de viagem há uns quarenta minutos. Largada no sofá, com a mala no chão, sem coragem de desfazê-la. Às vezes, demoro quase uma semana pra guardar as coisas. Coloco as roupas sujas pra lavar e deixo o resto dentro da mala. Vira uma extensão do meu armário. Se eu preciso de alguma coisa que tá lá dentro, abro e pego. Se não, fica tudo como está.
Em dias de questionamentos filosóficos, fico pensando se faço isso por preguiça ou por não querer aceitar o fim da viagem. Em dias normais - quase todos -, tenho a certeza de que é pura preguiça mesmo.
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Tocando no assunto, todo mundo tem seu dia de mala. Eu tenho vários. Reconheço e, para amenizar minha situação na hora do acerto final, costumo ser bem tolerante com os outros malas que aparecem na minha vida. Tolerante como um amigo meu que, mesmo eu tendo sido muito mala no dia em que nos conhecemos, continuou meu amigo.
Estávamos num casamento. Eu, cansada, tinha ido direto do trabalho e estava incomodada por ser a única mulher do recinto que não havia passado num salão de beleza antes do evento. Passei a festa inteira sentada. Altas horas da noite, todos sentados à mesa, luzes acesas, fim de festa decretado. O moço se aproximou e me chamou para dançar.
Sem chances. Sou tímida, estava deslocada, não tava a fim. Disse que não ia. Ele insistiu. Minha amiga casamenteira me deu um chute na canela, quase me empurrando pra fora da mesa - afinal, ele era o maior gatinho. Continuei dizendo não. A mesa inteira olhando. Eu dizendo não. E ponto final. Mala sem alça, eu? Não. Baú. E cheio de correntes, pra ficar bem pesado.
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Abri as cortinas. Aparentemente, tudo normal. A não ser no apartamento 803, que tá vazio, com um cartaz de "Aluga-se". Os caras já saíram? Era uma mudança que eu queria ter acompanhado. Nesse apartamento, vivia um casal homossexual. O lugar era lindo, superbem decorado. Os dois sempre fumavam juntos, na janela. Ficavam apoiados no peitoril, conversando como se tivessem acabado de se encontrar. Entre uma tragada e outra, sorrisos e olhares de cumplicidade. Muito legal.
Eu não podia ter perdido o encaixotamento das coisas! Com certeza, eu ia ter acesso a um monte de objetos e histórias que não ficam expostas no dia-a-dia. Aquelas coisas que parecem não ter importância, mas que quando a gente vê, não tem coragem de jogar fora, tamanha a importância delas. Que pena...
Mas, em vez de me lamentar por conta das coisas que deixei de ver em uma semana, vou me concentrar naquilo que eu ganhei durante os dias em que passei fora. Afinal de contas, em algum momento, a MINHA vida tem que ser mais importante do que a dos outros, né?
Só uma observação... O que faz um ser humano - e, portanto, racional - pregar um cartaz do tamanho de uma folha de caderno no oitavo andar de um prédio, com telefone de contato da imobiliária? Será que os binóculos estão mais populares do que eu pensava?
