Indiscreta Janela

sexta-feira, dezembro 10, 2004

Nossos queridos animais

O cachorrinho do 1.007 está pulando que nem maluco. A mulher está aos berros com o marido. Um vidro de remédio na mão, lágrimas nos olhos, agenda de telefone aberta. O caso é o seguinte: o remédio é fortíssimo, tarja preta, e o animal ingeriu, pelo menos, uns três. Não há colo que faça o cachorro sossegar. Pelo jeito, foi o cara que deixou o vidro largado, ao alcance do incansável cãozinho. Ele (o marido) está agora ajoelhado, com um pires de leite na mão, tentando reverter o quadro evidentemente alucinógeno do bicho. O cachorro não tá nem aí. Recusa o leite solenemente. Tá louco mas ainda não pensa que é gato.

Tive poucos bichinhos de estimação quando era pequena. Uma tartaruguinha que ficou com o casco mole, um peixe que morreu de tanto comer, um canário chamado Dersara e a Greta Garbo, vira-lata de olhos azuis. Destruiu o sofá da minha mãe e foi mandada pra uma chácara, onde passou os restos dos dias caçando galinhas.

Já adulta, resolvi comprar um Beta. Peixinho solitário, bonito, prático. Só dar comida e, de vez em quando, irritá-lo com um espelho. O pobrezinho pensa que a imagem é um inimigo e fica pronto pra guerra, superbonito, com as barbatanas abertas. O meu chamava Hermeto. Era branco, albino.

Um dia, cheguei em casa e ele estava quieto, sem vida, paradão no canto do aquário. Preocupada - e tendo que agüentar a chacota dos meus pais -, liguei para o veterinário. Confesso que peguei o telefone sem muita fé, mas, como legítima mãe do meu peixinho, senti que essa era a minha obrigação. Cinco minutos de conversa e tudo estava resolvido. Catei o abajur mais próximo e coloquei a luz em cima do aquário. Hermeto estava com frio. Depois de meia hora, já com a água morninha, meu lindo Beta branco voltava a nadar todo serelepe. Viva o veterinário. Viva a lista telefônica. Eu não saberia conviver com a culpa de ter matado um peixe de frio.

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A moça do 1.003 acabou de estender uma toalha vermelha no chão da sala. Espalhou umas cartas e está tirando a sorte. Mexe daqui, mexe de lá, ela fecha os olhos e se concentra. Vira uma carta. Franze a testa e abre um livro grosso, com uma mulher desenhada na capa. Vira outra carta e mais outra. Larga o livro num gesto de desilusão. Não foi dessa vez que o oráculo disse o que ela queria ouvir. Levantou e foi pra cozinha fazer brigadeiro.

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Hora da novela II - a missão
Conversando com um amigo meu sobre a hegemonia das novelas, ele lembrou de uma história muito boa, também da empregada de um colega dele. Toda noite, ela se juntava à família reunida em frente à TV. Em um capítulo crucial, os outros insistiam em atrapalhar a concentração da moça com comentários do tipo: "Imagine, que bobagem..."; "Ridículo esse enredo..." e "Só em novela para acontecer uma coisa dessas". De repente, a moça se irritou e disparou: "Se não é para acreditar, pra que é que assiste?" Falou e disse!