Hora da novela
Ontem, foi um dia importante na novela das oito (que sempre começa às nove). Uma cena esperada e anunciada aos quatro ventos - claro que eu e o país inteiro já sabíamos o que ia acontecer, estava em todos os jornais. Mas ver na TV é diferente.
A expectativa era tão grande, que parei em frente à televisão, de pé, para assistir ao desfecho da trama. Foi aí que olhei para o lado e me deparei com o casal do 903, na mesma posição que eu. No momento em que percebi a cena, fui flagrada pela mulher. Ficamos ali uns cinco segundos, sem jeito, sem poder disfarçar a indiscrição de janelas tão próximas. Abandonei a novela e fui para a cozinha.
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O horário da novela é sagrado. Passo os olhos pelas janelas e só o que encontro são aparelhos de televisão sintonizados no mesmo canal. Na televisão gigantesca do 801 ou no tímido aparelho do andar de cima, as atenções estão voltadas para os artistas globais. Daria uma tese sobre a hegemonia de uma emissora. E sobre as diferentes formas de recepção da mensagem: tem gente que senta sempre no mesmo lugar, outros aproveitam para jantar assistindo novela. Existem malucos (e não sou só eu!) que ficam de pé, tensos, sem perder nenhum detalhe.
A empregada de uma amiga minha colocava perfume e se penteava toda. Era a hora do encontro dela com os galãs. Sentava bem pertinho da TV e ficava quietinha, como uma espectadora de teatro, que não quer tirar a concentração dos atores. Um dia, minha amiga disse a ela que aquela caixa prata não era um palco, que não havia ninguém ali dentro e que, portanto, ela podia maneirar no perfume, a essa altura espalhado pela casa inteira. A empregada fechou a cara para a minha amiga e fez shhhhhh! Olhou novamente para a televisão e deu um sorrisinho sem graça, meio que pedindo desculpas ao Fábio Assunção e à Cláudia Abreu pelas maluquices da patroa.
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Meus vizinhos parecem atores de novela, limitados a uma caixa, uma história. De certa forma, me sinto como a empregada da minha amiga, sentada em frente a um pedaço de vida. Assisto a tudo quieta e perco a noção do limite entre o real e o imaginário. Pelo menos, ainda não tô na fase do perfume.
