Indiscreta Janela

domingo, março 20, 2005

Tia Zilda

A velhinha do 803 está sentada no sofá, rodeada de gente - incluindo os dois netos sarados que, outro dia, ajudaram na mudança. O papo está animado, a cada hora, um fala e a velhinha só ri. As vozes ficam mais altas e percebo que a família reunida está lembrando de histórias da matriarca.

Tive uma tia-avó cheia de histórias. Muito inteligente e muito doida. Fez coisas inacreditáveis, que viraram folclore na família. Nas festas, sempre tinha alguém que lembrava de um caso da tia Zilda.

Ela morava em uma cidade cheia de ruas complicadas. Todas de mão única – ou seja, se você bobeasse e virasse a esquina errada, era contra-mão na certa. Ciente disso e habituada a todos os caminhos que levavam à casa em que morava desde moça, Tia Zilda estava voltando da padaria numa linda tarde de sol. Passou pela rua, avistou o telhado da casa e seguiu adiante, para pegar o retorno e entrar na mão correta. Só quando colocou a chave no portão, se deu conta de um pequeno detalhe: o carro estava estacionado na garagem. Minha tia deu a volta inteira no bairro a pé, para evitar a contra-mão!!! Isso é que é respeitar o Código de Trânsito!

***
Ela era assim, totalmente desligada. Outra vez, estava em um show num ginásio. Sentadinha na arquibancada, ouviu a música preferida. Olhou para a moça ao lado e puxou papo:
- Ah, eu adoro essa música! Lembra a minha terra...
- Mar de Espanha, né?
- Isso mesmo!!! Você nasceu lá?
- Claro!
- Qual o seu nome?
- Eulália.
- Tenho uma irmã com o mesmo nome!
- Zilda, eu SOU a sua irmã!

***
Há algum tempo, fui visitá-la. O vizinho dela – que eu conhecia desde pequena – passou pela porta e acenou. Ela ficou toda empolgada: “Minha querida, você devia namorar esse rapaz. Ele é tão inteligente e tão bonito!”. Sorri e disse: “Ai, tia... não acho ele bonito, não...”. Ela chegou bem pertinho de mim e cochichou: “Ele é horroroso, né? Parece uma caveira. Você merece coisa melhor!”.

No ano passado, Tia Zilda ia fazer 95 anos – e queria reunir toda a família em uma festa de arromba. Foi pro andar de cima três meses antes. Deixou uma saudade danada.