Indiscreta Janela

terça-feira, março 01, 2005

Contrata-se

A moça do 607 está contratando empregada. Ontem, uma candidata chegou lá para a entrevista. A moça mostrou a casa inteira, abriu armários, levantou tapetes. Pelo tanto de cantos que ela fuçou, eu já estava quase gritando pela janela para a pobre coitada da empregada desistir do emprego. Mas ela insistiu. E começou a trabalhar hoje.

Touca para proteger o cabelo, avental para cozinhar. Engraçado ver uma empregada toda uniformizada, com cara daquelas moças que trabalham em filme, e tomam conta de castelos chiquérrimos. Não pensei que isso existisse na vida real.

Minha vizinha tem toda pinta de ser tradicional. Tudo no lugar, uma casa até bastante antiquada para a idade dela. Vasos de cristal na sala e tudo mais.

***
Histórias com empregada não faltam. Todo mundo já passou por uma experiência, no mínimo, esdrúxula com "a moça que trabalha lá em casa". Tem gente que começa a ter histórias logo na contratação.

A amiga da minha avó estava conversando com uma candidata. A moça, bem novinha e importada do Nordeste, parecia boa. A futura patroa, então, resolveu negociar o salário.

- Quanto você quer ganhar?
- Depende, dona. É pra fazer comida?
- É.
- É com penso ou sem penso?

A "dona" não entendeu nada. Com penso?!?

- Com penso é mais caro, tentou explicar a moça. Se a senhora me disser o que quer pro almoço e pro jantar, cobro um preço. Mas se EU tiver que PENSAR o que cozinhar, o salário vai ter que aumentar...

A amiga da minha avó teve que segurar o riso. Mas parou e pensou. Contratou a moça. "Com penso" - que, no final das contas, compensava.

***
A porta do 607 se abriu. A casa está às escuras. Minha vizinha acendeu a luz. Na mesa de jantar, o uniforme da empregada, cuidadosamente dobrado, com um pedaço de papel em cima, ao lado de um embrulho de jornal. A moça lê o bilhete, senta desolada. Joga o avental e a touca no chão, vai para o quarto batendo o pé. Percebi que o recado da empregada era, na verdade, uma carta de demissão. Só descobri o motivo mais tarde, quando a luz da lua iluminou o aparador da sala. Faltava um vaso de cristal. Vaso que, provavelmente, jazia no embrulho de jornal.