O dia em que o supermercado fechou
Moro em frente a um supermercado 24 horas. Meu companheirão. Se falta coisa no café-da-manhã, corro pra lá. No almoço, também. Acabou o papel higiênico? É pra já. Se tenho que levar bebida para uma festa, compro no supermercado. Na volta da festa, lá pelas quatro da manhã, dou uma conferida na sessão de chás e sucos. Para embrulhar um presente de última hora, é ele quem me salva. Só que ontem ele fechou. E ainda não abriu.
Hoje é o primeiro dia do ano. Dia em que até os funcionários do supermercado que não fecha nunca merecem uma folga. Mas é estranho. À noite, então, é estranhíssimo. Estou habituada àquela luz forte do letreiro nem um pouco discreto. Quando estou chegando de carro, ao ver as letras verdes, fortes, brilhantes, eu me sinto em casa. Uma sensação de aconchego, por mais estranho que isso possa parecer.
Ontem, saí para comemorar a virada do ano e estava tudo apagado. Os portões do estacionamento tão familiar estavam trancados. Senti um vazio. Deu a impressão de que a vida parou.
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Mas a vida continua. Para alguns, mais lentamente. Ressaca de ano novo não é fácil. O carinha do 701 está perdidão, deitado no sofá. Logo ele, tão rodeado de mulheres, está começando o ano sozinho. Por opção, só pra variar.
No chão, próximos a ele, estão o controle remoto da TV e o telefone celular. O aparelho toca, ele olha o visor e aperta a tecla que dispensa a ligação. Já fez isso umas oito ou nove vezes. Uma das melhores invenções do mundo é esse tal de identificador de chamadas. O cara não está a fim de papo, vai lá e dá "end" no celular. Sem precisar inventar desculpas, sem esperar uma deixa para encerrar a conversa. Basta o movimento de um dedo e o telefone silencia. Simples, rápido e sem dor de cabeça. Porque já basta o efeito das tequilas, whiskies e champagnes.
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Desde que me entendo por gente, cumpro uma série de rituais de ano novo. Romãs, lentilhas, uvas, sete ondas. Este ano, fiz diferente. Inventei os meus rituais. Amarrei uma cordinha na cintura, da cor amarela. E não foi para chamar dinheiro - que, se quiser aparecer, óbvio, será muito bem-vindo. Mas o objetivo era outro. E secreto.
Hoje, olhando pela janela, resolvi acender um incenso bem ali. Para purificar e perfumar a fronteira entre a minha vida e a dos outros. Uma coisa meio "em cima do muro", mas que deu vontade de fazer.
Acendi e a fumaça foi sumindo, não sem antes se transformar em desenhos lindos. Deixei o incenso queimando e fui arrumar umas coisas no quarto. Na hora de voltar para limpar as cinzas, percebi que estava de calcinha, sutiã e meia. Parei no corredor e cogitei ir até o quarto pra jogar uma camiseta por cima. "Já pensou se os vizinhos que vêem assim?" ...Problema deles. Eu queria tirar o resto do incenso da janela e fechá-la, porque estava meio frio. Não ia voltar pro quarto, abrir armário, pegar camiseta para me recompor dentro da minha própria casa.
E foi assim que meus vizinhos ganharam cinco segundos meus em frente à janela, em trajes íntimos e, por conta da meia esticada até a canela, nem um pouco sensuais. Dia primeiro de janeiro é desse jeito: tá com vontade de fazer tal coisa? faça! não tá nem a fim? não faça. Dá "end". Se até o supermercado que funciona noite e dia pode fechar, você pode tudo.
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Ano novo, vida nova! O apartamento 803 finalmente foi alugado. Depois eu falo sobre meus novos amigos. E que venham os próximos dias do resto do novo ano.
