Pra que time você torce?
Sabe aquela piada do cara sentadão no sofazão, de chinelão, vendo televisão? Pois é... meu vizinho do 1001 está assim. Barriga estufada na camisa rubro-negra, testa pingando de suor. Tá tomando cerveja desde as três da tarde, quando começou a se preparar para o jogo do domingo.
Vida longe do Maracanã é assim: tem que apelar para a televisão. Se o cara é fanático por futebol, a mulher pode esquecer o domingo à tarde. Aproveita e esquece também o sofá - que vai ser ocupado por ele, o chinelão, a lata de cerveja e a camisa do time. Às vezes, o jornal fica ali do lado, jogado, aberto no caderno de Esportes.
Melhor fazer como a mulher do meu vizinho. Saiu há horas, logo depois do almoço. Levou o carro e o cartão de crédito. Tomara que o Flamengo se livre do rebaixamento e o cara, tão cego de felicidade, não perceba a quantidade de sacolas que vão chegar em casa daqui a pouco.
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O pior é que, depois da rodada do Brasileirão, ou outro campeonato qualquer, vêm aqueles programas de TV com cenário verde e uns cinco ou seis "especialistas" comentando os jogos do dia. Os rapazes que me perdoem, mas aquilo é o fim! No início da minha vida matrimonial - há umas duas encarnações -, o domingo à noite era até engraçado. Os dois deitados na cama, controle remoto na mão. Bastava eu vacilar e... lá estava o cenário verde e aquele blá, blá, blá.
Mas começo de vida a dois é sempre um mar-de-rosas. Para não ter um chilique e quebrar a casa recém-montada, resolvi me aliar ao inimigo. Aceitei assistir Mesa Redonda, Terceiro Tempo, e sei-lá-mais-o- quê, desde que esses programas mudassem de nome. Lá em casa, eles eram os "Acaba Casamento". Não deu outra.
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Difícil concorrer com futebol. Quer irritar um flamenguista? Basta chamá-lo de vascaíno. Quer enfurecer um corintiano? Elogie a atuação do Palmeiras. Trocar o time do cara é xingar a mãe. Por isso, nunca esqueço do que aconteceu com o Seu Paulo.
Ele era casado com a Dona Marta há mais de quarenta anos. Tinham dois filhos. Um dia, Seu Paulo morreu. No velório, o filho mais velho, que era muito parecido com ele, foi abordado por um rapaz. "O senhor é irmão dele?", perguntou, apontando para o corpo presente. "Não, sou filho".
- Filho do Seu João?
- Não, do Seu Paulo. O nome dele era João Paulo, mas ele era conhecido como Paulo. Você é amigo do meu pai?
- Peraí, eu sei que o nome dele é João Paulo, mas a gente chama de João. E eu sou filho dele.
Dona Marta se ampara ao ver uma senhora, o rapaz e mais duas moças se apresentando como a família do João. Uma confusão danada dentro da capela. Tudo o que o Seu João Paulo escondeu a vida inteira foi revelado horas depois de sua morte. Ele tinha duas famílias. Para uma, era João. Para a outra, Paulo. Com Dona Marta, viveu quarenta e três anos. Com Dona Marina, trinta e sete. Chamava as duas carinhosamente de "Má", para não correr riscos.
No enterro, não se falava em outra coisa. A dor dos familiares era amenizada pela raiva de tanto tempo de mentiras. A irmã do Seu João Paulo, Dona Alice, assistia a tudo calada. Durante toda a vida, era foi a única que soube de tudo. Participou das festas de família, dos batizados, aniversários. Até representou o irmão em alguns momentos, quando os eventos familiares de ambos os lados coincidiam. Diante da fúria das viúvas, Dona Alice disse que estava muito abalada com a morte do irmão e não queria tratar de coisas "menores".
Os filhos do Seu João Paulo tentavam ser compreensivos. Afinal, eram todos do mesmo sangue, tinham de manter a calma. Começaram a conversar e até sorrir com nostalgia ao lembrar como o pai tinha sido bom para eles.
- Nunca vou esquecer do dia em que fui ao São Januário. Como o papai tinha orgulho do nosso time!
- Botafogo?
- Não. Vasco.
- Mas o papai era fanático pela estrela solitária!
- Peraí! O meu pai, o Seu Paulo, era vascaíno doente.
Silêncio. Com os olhos cheios de lágrimas, os filhos ficaram lembrando dos jogos que assistiram com o pai, as camisas oficiais, as bandeiras. Ter duas mulheres, ainda vai... Mas ter dois times??? Como ele pôde fazer isso? Vendo aquilo tudo, Dona Alice saiu de fininho. Não suportaria a pressão para revelar o verdadeiro time do irmão.
* N.A.: Os nomes são fictícios, mas a história é verdadeira. Juro!
