Indiscreta Janela

domingo, dezembro 19, 2004

Pra que time você torce?

Sabe aquela piada do cara sentadão no sofazão, de chinelão, vendo televisão? Pois é... meu vizinho do 1001 está assim. Barriga estufada na camisa rubro-negra, testa pingando de suor. Tá tomando cerveja desde as três da tarde, quando começou a se preparar para o jogo do domingo.

Vida longe do Maracanã é assim: tem que apelar para a televisão. Se o cara é fanático por futebol, a mulher pode esquecer o domingo à tarde. Aproveita e esquece também o sofá - que vai ser ocupado por ele, o chinelão, a lata de cerveja e a camisa do time. Às vezes, o jornal fica ali do lado, jogado, aberto no caderno de Esportes.

Melhor fazer como a mulher do meu vizinho. Saiu há horas, logo depois do almoço. Levou o carro e o cartão de crédito. Tomara que o Flamengo se livre do rebaixamento e o cara, tão cego de felicidade, não perceba a quantidade de sacolas que vão chegar em casa daqui a pouco.

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O pior é que, depois da rodada do Brasileirão, ou outro campeonato qualquer, vêm aqueles programas de TV com cenário verde e uns cinco ou seis "especialistas" comentando os jogos do dia. Os rapazes que me perdoem, mas aquilo é o fim! No início da minha vida matrimonial - há umas duas encarnações -, o domingo à noite era até engraçado. Os dois deitados na cama, controle remoto na mão. Bastava eu vacilar e... lá estava o cenário verde e aquele blá, blá, blá.

Mas começo de vida a dois é sempre um mar-de-rosas. Para não ter um chilique e quebrar a casa recém-montada, resolvi me aliar ao inimigo. Aceitei assistir Mesa Redonda, Terceiro Tempo, e sei-lá-mais-o- quê, desde que esses programas mudassem de nome. Lá em casa, eles eram os "Acaba Casamento". Não deu outra.

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Difícil concorrer com futebol. Quer irritar um flamenguista? Basta chamá-lo de vascaíno. Quer enfurecer um corintiano? Elogie a atuação do Palmeiras. Trocar o time do cara é xingar a mãe. Por isso, nunca esqueço do que aconteceu com o Seu Paulo.

Ele era casado com a Dona Marta há mais de quarenta anos. Tinham dois filhos. Um dia, Seu Paulo morreu. No velório, o filho mais velho, que era muito parecido com ele, foi abordado por um rapaz. "O senhor é irmão dele?", perguntou, apontando para o corpo presente. "Não, sou filho".

- Filho do Seu João?
- Não, do Seu Paulo. O nome dele era João Paulo, mas ele era conhecido como Paulo. Você é amigo do meu pai?
- Peraí, eu sei que o nome dele é João Paulo, mas a gente chama de João. E eu sou filho dele.

Dona Marta se ampara ao ver uma senhora, o rapaz e mais duas moças se apresentando como a família do João. Uma confusão danada dentro da capela. Tudo o que o Seu João Paulo escondeu a vida inteira foi revelado horas depois de sua morte. Ele tinha duas famílias. Para uma, era João. Para a outra, Paulo. Com Dona Marta, viveu quarenta e três anos. Com Dona Marina, trinta e sete. Chamava as duas carinhosamente de "Má", para não correr riscos.

No enterro, não se falava em outra coisa. A dor dos familiares era amenizada pela raiva de tanto tempo de mentiras. A irmã do Seu João Paulo, Dona Alice, assistia a tudo calada. Durante toda a vida, era foi a única que soube de tudo. Participou das festas de família, dos batizados, aniversários. Até representou o irmão em alguns momentos, quando os eventos familiares de ambos os lados coincidiam. Diante da fúria das viúvas, Dona Alice disse que estava muito abalada com a morte do irmão e não queria tratar de coisas "menores".

Os filhos do Seu João Paulo tentavam ser compreensivos. Afinal, eram todos do mesmo sangue, tinham de manter a calma. Começaram a conversar e até sorrir com nostalgia ao lembrar como o pai tinha sido bom para eles.

- Nunca vou esquecer do dia em que fui ao São Januário. Como o papai tinha orgulho do nosso time!
- Botafogo?
- Não. Vasco.
- Mas o papai era fanático pela estrela solitária!
- Peraí! O meu pai, o Seu Paulo, era vascaíno doente.

Silêncio. Com os olhos cheios de lágrimas, os filhos ficaram lembrando dos jogos que assistiram com o pai, as camisas oficiais, as bandeiras. Ter duas mulheres, ainda vai... Mas ter dois times??? Como ele pôde fazer isso? Vendo aquilo tudo, Dona Alice saiu de fininho. Não suportaria a pressão para revelar o verdadeiro time do irmão.

* N.A.: Os nomes são fictícios, mas a história é verdadeira. Juro!