Indiscreta Janela

domingo, janeiro 09, 2005

A mudança do 803

Depois de algum tempo, o apartamento 803 foi alugado. No dia da mudança, dois rapazes fortes, morenos, tipo galã de novela das sete, apareceram por lá, carregando caixas, ajeitando coisas. Um estava sem camisa o tempo todo. Parecia fazer mais força pra carregar as coisas do que realmente era necessário. Tudo para que o tríceps saltado ganhasse mais destaque.

Mas uma coisa estava me intrigando. Em vez de halteres, som superpotente, computador de última geração, os objetos que chegavam ao apartamento eram clássicos. Porta-retratos, paninhos de crochê e xícaras de porcelana. Alguma peça estava fora do lugar. A resposta, eu só tive no dia seguinte.

Acompanhando os dois moços, apareceu uma velhinha. Idade bastante avançada, mas toda empinada, magrinha, super-ágil. Olhou a arrumação do apartamento - que estava, na verdade, totalmente desarrumado -, sorriu para os rapazes e começou a afagá-los, mais ou menos como a gente faz com cachorro. Não mexeu em um móvel enquanto os (suponho) netos ficaram por lá. Preparou um suco, abriu uma lata de biscoitos amanteigados e serviu os dois.

Uma hora depois, quando os rapazes foram embora, a velhinha do 803 chamou a empregada, que havia chegado há pouco, e começou uma verdadeira revolução no apartamento. Aí, sim, o lugar ficou com cara de vovó, com tudo no lugar. E quando eu digo tudo, é tudo mesmo, porque quanto mais velha a pessoa fica, mais coisas acumula. É impressionante a quantidade de caixinhas, bonequinhos, bibelôs que as pessoas mais idosas conseguem espremer em uma estante só.

***
No 1.005, ontem, foi dia de pagode. Quatro caras, um violão, um pandeiro, um tamborim e um cavaquinho. Passaram a tarde inteira - e um bom pedaço da noite - batucando. Cerveja acompanhando e uma platéia considerável. Muita gente para um apartamento só, mas o clima era de botequim, quanto mais cheio, melhor. "Ex-amor, gostaria que tu soubesses..." e a tarde caindo.

Quem não tava gostando nem um pouco da brincadeira era o vizinho de cima. Andava pra lá e pra cá, dava uma espiada na janela. Em momentos de fúria, chegou a socar o guarda-corpo. Não agüentou e, aos berros, pediu pra parar. O anfitrião do samba tentou dialogar: "Meu irmãozinho, vem tomar uma cervejinha. Hoje é sábado, não tem nada de bom passando na televisão, relaxa!"

O cara não mexeu um músculo. Saiu do apartamento batendo pé. Confesso que fiquei apreensiva, pensei que ele ia chamar a polícia ou tocar a campainha e quebrar a cara de quem abrisse a porta. Mas ele não apareceu. Foi embora ao som de "Não é por estar na sua presença, meu prezado rapaz, mas você vai mal, mas vai mal demais... São seis horas, o samba tá quente..."

***
Depois desse estresse, resolvi observar os outros vizinhos, pra saber se o samba tava agradando ou aborrecendo mais gente. Não percebi movimentação. A não ser no 803. A velhinha estava sentada numa poltrona, costurando uns retalhos. Cabeça baixa, na maior concentração. Os pés num chinelinho atoalhado batiam no chão, ao ritmo da música do 1.005.