Barraco no oitavo andar
Todo prédio que se preza tem uma baixaria algum dia. Uma batida de porta mais forte, um grito, choro, barulhos inexplicáveis. Quando a briga é com criança, fico agoniada. Quando é de marido e mulher – tenho que confessar –, meu interesse aumenta. Elas são reveladoras.
Outro dia, era hora do almoço. Eu estava lá, pés em cima da cadeira, tudo tranqüilo como um grilo. E aí, começou o barraco. Parecia cena de teatro: o cara de um lado, a mulher do outro, a empregada no meio!
A coisa devia estar pegando fogo mesmo, porque o casal ignorava a presença da pobre moça, estática, sem saber o que fazer. Na verdade, ela parecia uma espectadora de partida de tênis. Cabeça para um lado, cabeça para o outro. Mal piscava.
No início, não dava pra ouvir o que eles falavam. Era como se gritassem baixo – voz presa na garganta, cara de ódio. De repente, a bomba explodiu. O cara fez uma pergunta bem baixinho – que droga, não deu pra ouvir! - mas a mulher não se fez de rogada. Começou a berrar, entrou em surto. “Dei, sim!!! Dei, sim!!!” (A empregada, a essa altura, olhando para chão). “E ele é muito melhor do que você!!!”
Assim, simples e direto. Em alto e bom som, pra todo mundo – e não só a empregada – ouvir. Lentamente, cheguei perto da janela e fechei a cortina. Fiquei constrangida por ele. Não ouvi mais nada nos quinze minutos seguintes.
Indiscreta que sou, não resisti e voltei à janela. O cara estava no sofá, lendo um livro. A mulher, com toalha enrolada na cabeça e um roupão, lixava as unhas no quarto. Enquanto isso, a empregada varria o chão.
