Indiscreta Janela

terça-feira, fevereiro 08, 2005

Ora, bolas

Feriadão é tempo de sair da rotina. Quem pode viaja. Quem não pode aproveita para tirar o atraso - no sentido bem amplo da palavra. Pode ser o sono atrasado, o cinema atrasado, saídas, sexo, TV, encontro com amigos. Ou, simplesmente, a arrumação do armário.

Minhas duas vizinhas do 805 resolveram botar ordem na casa. Uma delas está na sala, sentada no chão, todos os CDs espalhados. Está fazendo duas pilhas: uma, enorme, é a dos discos que ela quer guardar; a outra é daquilo que ela não quer mais. De vez em quando, a amiga vem na sala e furta algum da pilha menor. Tudo isso ao som dos CDs mais antigos, aqueles esquecidos, mas que ainda têm seu valor. "Como pude ficar tanto tempo sem ouvir essa música?", é a pergunta mais comum nesse tipo de 'faxina'. Ou então... "O que eu tinha na cabeça quando comprei esse disco???" Música é, realmente, uma coisa de momento. E é fantástico como ela tem o poder de trazer de volta esses momentos, mudar nosso humor, distrair em uma tarde de fim de semana prolongado.

A outra moradora do apartamento está no quarto, com as três portas do armário escancaradas, roupas jogadas na cama. Para arrumar armários, o esquema é esse: você tira tudo que está lá dentro, respira fundo e começa o trabalho. Nunca fui capaz de organizar as roupas de outra forma. Tem que ser na base do choque. Ou você coloca tudo de volta nas gavetas e cabides ou não vai ter onde dormir. Sem escapatória.

Embalada pelo som que vem da sala, a moça está fazendo um excelente trabalho. As prateleiras que antes representavam o caos estão superorganizadas. Branco com branco, preto com preto. Calças e casacos de um lado. Blusas finas penduradas nos cabides - ton sur ton. As estampas têm um espaço reservado.

Reservadas também estão as roupas que ela não quer mais. Já experimentou algumas, não gostou do que viu e deixou de lado. Agora é a vez da amiga dos CDs confiscar peças de roupa mais arrumadinhas. Entra no quarto, olha tudo, se emociona ao ver que aquela blusa ma-ra-vi-lho-sa de bolinhas já não tem mais lugar no guarda-roupas da outra. Segura a blusa com força, como uma criança que chega num parquinho com o brinquedo favorito nas mãos. E, assim, a tarde do feriado passa.

***
Também tenho uma blusa de bolinhas que adoro. Preta, bolinhas brancas. Um dia, estou no banheiro do shopping, lavando as mãos. Pelo espelho, uma mulher me observa.

- Sua blusa tá linda.

Comento que tenho ela há muito tempo, nem lembro onde comprei. Mostro que as bolinhas já não estão tão vivas - umas se perderam entre uma lavagem e outra. A mulher parece hipnotizada.

- Adoro bolinhas. Combinam com pérolas.

E olha para a minha pulseira de pérolas. Sem ter o que falar, concordo. Ela continua.

- Tenho até sapato de bolinhas.

Já atrasada para a sessão de cinema, sorrio. Não posso nem devolver o elogio - ela está com um conjuntinho de listras, uma combinação que não me atrai nem um pouco. Agradeço o comentário. Quando a minha imagem desaparece do espelho, ela sai do transe. Vem apressada atrás de mim e diz com a voz um pouco mais alta, quase em falsete:

- De nada.

Entramos na mesma sala de cinema, sem nos olhar. Como se nada tivesse acontecido no banheiro. Como duas estranhas - uma de bolinhas, outra de listras.