Indiscreta Janela

segunda-feira, abril 25, 2005

A janela da gente

Faz tempo que não olho para os meus vizinhos. Acho que chega um momento em que a gente tem necessidade de prestar atenção apenas no que acontece do lado de dentro da nossa janela. São tantas histórias, tantas idas e vindas, que a vida dos outros (daqueles outros desconhecidos que vivem do lado de lá) perde um pouco o sentido.

É claro que passei um bom tempo me divertindo com o que acontecia no prédio da frente. A moça do 1.008, que tentou de toda forma impedir a ‘morte’ das flores que recebeu; o casal gay que vivia no 803, confirmando que toda forma de amor vale a pena; a velhinha que se mudou para lá depois e tanto lembrou minha tia.

Às vezes, olhava pela janela e me via refletida em outras pessoas. O Leite Moça com Nescau do 905 me deixa até hoje com água na boca. Carnaval, Natal, Páscoa – todos comemorando essas datas de alguma forma. As luzes do 907, apesar de um pouco exageradas, acabaram iluminando a minha árvore de Natal, que só tinha presentinhos e bolas vermelhas. No andar de cima, o cachorro do casal parecia o ‘mascote’ da minha mãe.

***
No cantinho do prédio da frente, vejo uma menina de uns dezesseis, dezessete anos. Olhos vivos, ela encosta os braços na janela e observa. Está há um tempo olhando para baixo, provavelmente vendo alguma cena de um morador do meu edifício. Compenetrada, nem se preocupa em esconder a curiosidade.

Em um segundo, nossos olhares se cruzam. Ela fica meio sem graça. Eu sorrio. E ainda com o sorriso no rosto, percorro as janelas com os olhos e lembro de um pedaço de história de cada quadradinho. Pessoas estranhas que me ignoram completamente e que, ao mesmo tempo, fazem parte da minha vida.

Mas não perco de vista que elas são apenas uma parte. E que o todo está me chamando agora. Olho para o meu binóculo na estante da sala. Resolvo deixá-lo ali, para qualquer eventualidade. Mas, por ora, resolvo não mais espiar a vida dos meus vizinhos. Sento no sofá, ligo a TV e, com a certeza de estar sendo observada pela menina dos olhos espertos, volto a viver a minha vida.