Indiscreta Janela

domingo, março 27, 2005

Siga o coelhinho

Ontem à noite, véspera de Páscoa, o casal do 1.001 passou boa parte do tempo escondendo ovinhos coloridos pelos cantos. Os lugares eram óbvios: dentro de um enorme jarro de cerâmica, atrás do sofá, pendurado no lustre, dentro do forno. Mas vale tudo para alimentar a fantasia da criançada.

Hoje, porém, constatei que a fantasia vai além da infância. A procura pelos ovos começou pouco antes do almoço – e foi liderada por dois marmanjos. A caça ao tesouro contava com um time de quatro pessoas. Os dois adultos, um adolescente e uma criança de uns nove, dez anos. E o pior é que, por mais óbvios que fossem os esconderijos, os caçadores demoraram para caramba.

Será que a capacidade de brincar com o coelhinho da Páscoa vai diminuindo ao longo do tempo?

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Sou suspeita para falar. Não deixo morrer a criança que tem dentro de mim. Tenho até uma explicação para isso: fui uma criança muito adulta, cheia de responsabilidades, medos, raciocínio. Hoje sou uma adulta meio criança. Adoro ganhar ovo de chocolate. E quando alguém diz que vai me dar um, peço logo para esconder. Ovo de Páscoa “achado” é muito mais gostoso.

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No 905, todas as atenções estão voltadas para um ilustre visitante. De olhos vermelhos e pêlo branquinho, um coelho pula assustado pela sala. Já faz algum tempo que ele está no apartamento. Na quarta-feira à noite, uma criança, ainda de uniforme do colégio, brincava com o bichinho. Imagino que tenha sido presente da escola, em comemoração à Semana Santa.

Pelo que entendi, o menino ganhou o coelho, que foi vetado na casa dele. Aí, uma pobre tia – minha vizinha – resolveu ser caridosa e abrigar o animalzinho. Lá está ele na gaiola. Ficou lá todos esses dias, recebendo muitas cenouras, mas pouca atenção.

Agora, a família do menino está em volta da gaiola. Um põe a mão no queixo, outro coça a cabeça. O destino do coelhinho será definido em instantes. Os adultos querem se livrar do problema. A criança não larga o bicho.

Até que... minha vizinha aparece com uma cesta enorme, cheia de ovos de chocolate. Em poucos minutos, o menino nem lembra do coelho. Fica do outro lado da sala, maravilhado com os papéis coloridos que embrulham todas as delícias. Enquanto isso, uma das pessoas pega sorrateiramente a gaiola e sai do apartamento. A Páscoa foi embora. O coelho também. Espero que não se transforme no almoço do próximo sábado.

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Na quinta-série, participei de um concurso de redação e conquistei o segundo lugar. Meu prêmio foi muito importante: um coelho com pedigree. Que é chique, não há como negar. Agora... como é esse coelho eu não posso responder. Talvez por ter sido perto do Natal, e não da Semana Santa, não me sensibilizei. Não busquei o prêmio até hoje. Onde será que ele está? Será que um coelho com pedigree dura vinte anos??