Diploma na parede
Estava observando as paredes do primeiro quarto do 707. Lá estão pendurados diversos diplomas, devidamente emoldurados e com vidros anti-reflexo. Não resisti, peguei meu binóculo para vasculhar a vida do meu vizinho.
Descobri que ele se formou em Letras e fez uma especialização em Literatura Infantil. Também participou de um seminário em Madrid sobre a arte de contar contos. Tem diploma de inglês e de espanhol. E um certificado de um curso de 48 horas em mandarim. Não sei como alguém consegue se comunicar com um chinês em apenas dois dias, mas, se está pendurado na parede, eu acredito...
Ao lado dos diplomas, está uma foto de um menino novinho, com beca de cetim azul, provavelmente na primeira formatura de sua vida, na pré-escola. Símbolo do início de uma jornada de conhecimento.
Paredes, mesas, agendas e – na era da informação – páginas na Internet podem dizer muito sobre uma pessoa. Cada objeto, quadro, anotação representa uma característica que a gente quer mostrar, um recado que a gente quer passar. Para o meu vizinho, os cursos feitos ao longo da vida estão ali, presos à parede, como se em cada moldura coubesse todo o conhecimento adquirido nas tantas horas/aula especificadas em cada diploma.
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Já fiz vários cursos. As matérias mais diversas. Fiz curso de artesanato, culinária, alemão e curso de pós-graduação. Tanta coisa que, não raro, esqueço o conteúdo do curso em si. Mas guardo sempre as lições que não caíram na prova.
Da minha pós, por exemplo, só carrego coisas boas – mesmo sem lembrar o nome de um professor sequer. O grupo era sensacional, formado por pessoas que se cruzaram na hora certa e que, até hoje, tentam compatibilizar agendas para poder se encontrar e dizer “turma como a nossa não existirá jamais”.
Não sei onde está meu diploma de pós-graduação. Pensando agora nas histórias daquela época, fiquei com vontade de pendurá-lo na parede. Assim, eu ficaria horas viajando por minhas lembranças. Seria uma espécie de portal. Um túnel do tempo, emoldurado, com vidro anti-reflexo.
