Indiscreta Janela

segunda-feira, novembro 29, 2004

Cortinas fechadas

Acabo de fechar as minhas cortinas. Vou viajar a trabalho e ficar longe dos meus vizinhos por um tempo. O que será que eles vão fazer durante esse tempo? É uma pergunta que, nem com o meu binóculo, vou conseguir responder. Sempre fiquei intrigada com esses espaços de tempo que a gente tem na vida. Muita coisa pode acontecer em uma semana. E pouca coisa pode mudar em um ano.

Não sei o que vai ser diferente na vida dos meus vizinhos e o que vai continuar na mesma. Vou tentar descobrir quando abrir as cortinas novamente. Pretensão a minha. Não sei nem o que vai acontecer desse lado da janela e já estou especulando o rumo que as pessoas do outro lado da rua vão tomar.

Bom... estou atrasada. Meu vôo sai em uma hora e quinze. Tenho que chegar cedo ao aeroporto, fazer o check-in e, claro, garantir um assento na janela.

quarta-feira, novembro 24, 2004

Os foras nossos de cada dia

Hora do almoço, sol batendo na janela. Enquanto a água do macarrão ferve (quando eu morava com meus pais, macarronada era prato de domingo... doces tempos...), uma movimentação no 705 me chama a atenção. A moça de lá está ao telefone, incrédula. Às vezes, grita. Outras, fala baixo, como se ninguém pudesse ouvir. Gesticula, coloca as mãos na cabeça, em desespero. Pára e fica olhando para o telefone - o interlocutor, a essa altura, já desligou.

Ela pega o aparelho sem fio e se debruça na janela. Eu me concentro, para ouvir trechos da conversa. Apesar do barulho da rua - movimentada com o entra-e-sai de pais e crianças que almoçam em casa -, consigo entender a história. A moça acabou de levar um fora de um zé ninguém. Um cara que não tinha a menor importância na vida dela e, por isso mesmo, ELA deveria tê-lo dispensado. Mas ele foi mais rápido.

O lamento da minha vizinha não é pela perda do cara, e sim pela perda de tempo. Ela daria tudo para ter de volta algumas horas e virar o jogo, mandando aquele "imbecil" (isso eu consegui ouvir pela janela!) pra bem longe, antes que ele pudesse pronunciar a temerosa frase "a gente precisa conversar".

***
Já levei uns foras engraçados. Foras de quem eu nem pensei em ter alguma coisa. Eu chamo de "toco antecipado". O cara já me dispensa antes de ouvir um óbvio "não". Uma vez, eu tava no shopping e meu celular tocou. Era um amigo do amigo do amigo, que pegou meu telefone com a amiga de outro amigo. Enfim... um cara que nunca trocou uma palavra comigo. Ele se apresentou, me chamou pra sair. Eu, muito educada, não tive coragem de dizer não. Falei pra ele me ligar depois. Ele ligou, eu nunca mais atendi.

Um belo dia, depois de umas dez chamadas não atendidas, resolvi parar de infantilidade. Virar mulher, atender o telefone e dizer "não, não tô a fim de sair com você". Pedi desculpas. Ele aceitou. "Não tem problema. Vamos combinar de jantar qualquer dia desses." E se adiantou na dispensada. "Mas, como estou saindo com outra garota, a gente só pode se encontrar se for como amigos, viu?"

Recebi outro toco antecipado numa lanchonete perto da minha antiga casa. Eu tinha voltado de férias, estava mais magra e bronzeada. Cheguei lá, o atendente mal me reconheceu. Quando fui pagar a conta, ele não resistiu. "Nossa, emagreceu, hein? Se você fosse o meu tipo, eu casava com você. Mas como você não é...". Ah, tá.

***
O cachorro do 1.007 virou atração turística. Incontável o número de visitas que ele recebe. A todo momento, a porta abre e os donos começam a assobiar. Lá vem o bichinho, todo serelepe, abanando o rabo e lambendo a mão de quem chega. Ele já está à vontade. Três pés de meia espalhados pela sala mostram quem é o dono do pedaço.

Ontem, não satisfeito em roer todos os pés da casa (os de meia, os da mesa, os das cadeiras...), o cãozinho caiu de boca no carregador de celular que tava conectado à tomada. Lutou até desencaixar o aparelho. O dono correu e conseguiu salvar a situação. Salvou o cachorro de um choque elétrico. Salvou o carregador de um triste fim. Deu um tapinha no bichinho de estimação, dizendo "não pode" e entregou uma meia novinha, pro cão se deliciar. A lua-de-mel continua, e sem data para acabar.

segunda-feira, novembro 22, 2004

Ponto de vista

Minha fixação por janelas está tão séria que me peguei dirigindo e olhando para os prédios da rua. Ok, me dêem o atestado de loucura, que eu assino embaixo. Não bastassem os meus vizinhos, agora quero saber da vida dos vizinhos dos outros... Mas nada mais legal do que passar por um edifício e, apenas com uma rápida olhada, capturar um pedaço de uma história.

E foi andando assim, distraída, que vi uma faixa pendurada em uma varanda. “Vendo apto 4 quartos vazado”. Palavra mágica para mim: vazado. Meu sonho é viver num apartamento assim.

Para quem não sabe – e pasmem, existem pessoas que não sabem! –, vazado é aquele apartamento que tem janelas para os dois lados. O vento circula, refresca, dá uma voltinha pela sala, sai pelo quarto e deixa o ambiente muito mais gostoso.

A outra vantagem do apartamento vazado é a vista. As vistas, melhor dizendo. Você tem vista para um lado e para o outro. Se tiver um prédio na frente, pode ter a sorte de ter um descampado do outro lado. Ou um prédio mais legal. Ou uma rua movimentada. Você pode estar numa janela vendo um homem passar na rua. Ele some debaixo do seu prédio. Você corre para o outro lado e lá está ele, passando tranqüilamente!

Coisa de gente fofoqueira, você pode estar pensando. Depende. Depende do ponto de vista. E, num apartamento vazado, você tem DOIS pontos de vista. O que é sempre melhor.

quinta-feira, novembro 18, 2004

Um mês depois...

Outro dia, abri a porta com um monte de correspondências e me dei conta de uma coisa. Estou no novo apartamento há um mês e essa já é a minha casa. Minhas cartas chegam aqui, é para cá que eu volto todos os dias e dou aquele suspiro de alívio, como se tivesse chegado ao porto seguro. Porto que, há pouco mais de um mês, era estranho para mim. Eu nunca tinha passado perto desse prédio. Nunca tinha reparado na vida que as pessoas vivem aqui.

E agora, trinta e poucos dias depois, eu e meus vizinhos temos uma porção de história pra contar. Já acompanhei bebedeiras, namoros, crises, comemorações. Coisas inconfessáveis, que a gente só faz quando tranca a porta da rua. Como pequenas manobras para arrumar marido...

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Isso acontece com a garota do 805. Ela está com uns 24 anos. Mora com outra moça, que deve ser parente, porque as duas são muito parecidas. No aparador da sala, um verdadeiro culto ao namorado. Fotos de todo jeito - até do rapaz quando era bebê, com um enorme coração desenhado com canetinha vermelha, com a frase "nossos destinos foram traçados na maternidade".

Só que o destino não tá favorecendo muito. A moça tá louca pra casar e, pelo jeito, não consegue marcar a data. No canto esquerdo do quarto, atrás de um móvel, está o pobre coitado do Santo Antônio. O bichinho está pendurado num barbante, de cabeça para baixo. De vez em quando, minha vizinha vai lá, pega o santo. Eu respiro aliviada. Enfim ela vai dar um descanso pra ele. Que nada... Sem pestanejar, a moça tranca o santo no congelador ou arranca o bebê que ele tem no colo. Para não dar bandeira, todo cuidado é pouco. Cansei de vê-la correndo pela casa para esconder o santo antes de o namorado chegar.

Na noite passada, eles chegaram juntos (o casal, porque o santo tava de castigo). Ela estava relaxada, provavelmente por conta de umas bebidinhas a mais. Sentou no sofá e pediu mais uma dose. Esqueceu que a Absolut estava no congelador, ao lado do Santo Antônio. O namorado foi até a cozinha, abriu a porta da geladeira. Em vez de pegar a garrafa, pegou o objeto esbranquiçado. Sacudiu, analisou, deu uma rápida olhada para a sala. A moça estava de olhos fechados, cantarolando. O rapaz colocou o santo exatamente no mesmo lugar, tirou a vodca e fechou o congelador, como se nada tivesse acontecido. Santo de casa não faz milagre.

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Tem vizinho novo no pedaço! O casal do 1.007 comprou um cachorro. Latido forte, inversamente proporcional ao tamanho. Há uns quarenta minutos, os dois marmanjos estão babando com as gracinhas do filhote. Ele é fofo mesmo. E uma ótima oportunidade para eu tentar entender o mundo dos cães, já que o dos homens está difícil.

sábado, novembro 13, 2004

Vida em frestas

Estou sentada no sofá, com alicate, lixa de unha, esmalte e uma boa dose de contorcionismo para tirar cutículas do pé. Televisão ligada, falando para ninguém. Não sei o que acontece com os programadores de TV, que parecem programados para colocar coisa ruim no ar durante o final de semana. Não acertam nunca. É só seriado chatinho, programa de auditório batido, filmes de mil novecentos e bolinha. Mas o barulho da TV vicia, principalmente quando se mora sozinho. Preenche o espaço, apesar de não acrescentar nada.

A janela está aberta, mas a cortina está fechada - o que é péssimo, porque vem o vento e a persiana fica batendo. O problema é que fico encabulada. Olha como são as coisas... Eu, que invado sem pudor a privacidade dos meus vizinhos, tenho vergonha de fazer o pé na frente deles. Na verdade, nem sei se mereço tanta atenção, mas não me sinto bem.

Quando o vento bate e a persiana abre um pouco, dou uma espiada rápida, para ver se não estou sendo observada. E, pelas frestas da persiana, vejo um pouco do que está acontecendo lá fora. Numa hora, vejo um pai embalando um neném. Quando a persiana abre de novo, ele já não está mais lá. Na outra janela, a moça do 1.003 chega. Tá de cabelo novo, de cor diferente. A persiana fecha. O vento volta e o cara do 901 acaba de derramar um copo de suco no sofá. Na janela de cima, um casal joga cartas. A persiana fecha. Depois abre. Depois fecha.

Percebo que a vida acontece assim, em frestas. Um almoço numa sexta-feira, em um restaurante vazio, é um pedaço de uma história. Um encontro no corredor do trabalho e um rápido comentário sobre a roupa da colega também são trechos de outra história. Nunca a gente consegue ver a história completa. Porque ninguém - nem mesmo eu, que sou tão indiscreta - deixa a janela totalmente aberta.

quinta-feira, novembro 11, 2004

Eu e o queijo prato

Todo mundo sabe que existem aquelas tardes em que nem o sol sorri e a solidão invade todo o apartamento. Mas nem todo mundo sabe que, um dia desses, isso pode acontecer com você... E assim eu pensava, até que hoje... Céu cinza, tudo silencioso, muita coisa pra fazer mas, na verdade, absolutamente nada pra fazer. As cortinas da frente fechadas, alguns apartamentos vazios, sem histórias.

Se minha restituição do Imposto de Renda tivesse saído, eu poderia ir a um shopping e comprar, comprar, comprar. Começaria renovando meu estoque de calcinhas e sutiãs, que já está muito “demodé”. Depois, partiria para a mudança no estilo de me vestir. Um monte de peças novas, diferentes, fashion. Mas meu contracheque não me convida a uma loucura dessas...

Vou procurar meus amigos! Onde estão meus amigos alegres, sorridentes e à toa? Não estão... A essa hora, estão todos envolvidos com seus trabalhos, amores, dinheiro, família e outros amigos solitários. O caso é sério. Vou me atirar da janela!

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Antes de pular, resolvo dar uma olhadinha no prédio da frente. Chegou alguém no 801. A empregada, carregada de sacolas de supermercado. Já tenho o que fazer! Diga-me o que compras e te direi quem és!!! Me debruço na janela, na maior cara-de-pau. Numa tarde dessas, eu me recuso a ficar escondida, por trás das cortinas. Tô espiando mesmo, e daí?

Arroz, macarrão, farinha, batatas... (Péssima dieta. Só carboidratos!) Óleo, latinhas de ervilha, milho, legumes. Sabão em pó, detergente, leite - leite no mesmo saco que material de limpeza? Credo... Eu separo tudo, sou superchata com isso. Coisa de geladeira com coisa de geladeira. Biscoito doce com biscoito doce. Comidas salva-vidas - leia-se miojo e sopa Knorr - com comidas salva-vidas.

A cozinha do 801 tá uma bagunça. Ela vai demorar para arrumar. Resolvo dar uma volta, comprar alguma coisa pra comer. Antes, resolvo checar minha geladeira, pra ver o que está faltando. É quando me deparo com o queijo prato.

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Minha paixão pelo queijo prato é antiga. A tarde se iluminou quando a gente se encontrou. Existe coisa mais gostosa do que cortar o queijo com aqueles cortadores espetadinhos e devorar cada fatia como se fosse a última? Faço isso desde pequena. Desde a época em que eu odiava todos os outros tipos de queijo - o que me rendeu muitas situações constrangedoras na casa de amigos. "Crianças, o queijo quente está pronto!"... eca!

Peguei meu queijo prato, o cortador, sentei na cadeira (com os pés na outra). E foi assim que eu passei a minha tarde malvada: comendo compulsivamente, na maior concentração. Não olhei para fora. Não sei como foi o entardecer dos meus vizinhos. Eu e o queijo prato nos bastamos.


sexta-feira, novembro 05, 2004

Ninho de Estranhos

Há três dias, o mesmo caminho: da mesa da sala à janela, da janela à mesa da sala. É assim que o senhor do 903 está. Ele não é de casa. É pai da moça que mora lá. Imagino que não more na cidade. Está passando uns dias por aqui, para curtir o neto e o jovem casal. Só que ele se sente estrangeiro. A forma como anda de um lado para o outro, o olhar perdido, buscando paisagem onde só se vê concreto, tudo isso tem um ar de "não sou daqui". Ele tá deslocado. Como diz meu pai, "mais perdido que cego em tiroteio".

Tem vezes que a gente fica assim, completamente fora do lugar. Nem as mãos encontram lugar. A gente fica meio sem jeito, não sabe se cruza os braços, se balança a perna ou se anda de um lado para outro. Chego a me identificar com aquele senhor. Ele, como eu, usa a janela como fuga. Olha para fora, toma um ar e volta para o lugar estranho. É como se o lado de fora não pertencesse a ninguém, deixando todo mundo à vontade.

O senhor agora está à vontade. Está lembrando de alguma coisa, os olhos voltados para cima. Li isso em algum lugar: se a pessoa olha para cima, é sinal de que está acessando a memória; se olha para determinado lado, é sinal de que está mentindo (fiz questão de esquecer qual é esse tal lado, para evitar decepções...). Enfim... remexendo num baú empoeirado, guardado no fundo do cérebro, o senhor sorri. Naquele lugar estranho, acaba tendo um encontro com o passado tão familiar. O senhor do 903 volta para dentro do apartamento com a certeza de que a vida vale a pena.

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Falando em lembranças do passado, nos idos de 1960, o tio de um amigo meu provou que só tinha olhos para a mulher dele. Em um baile de carnaval, quando a noite ainda era embalada por marchinhas, chegou distraído perto do filho e da moça mascarada que estava ao lado. Todo galanteador, ensaiou o melhor sorriso e perguntou se o filho não ia apresentar a bela morena. Tentando consertar o estrago, o filho cochichou: "Pai, é a mamãe!". Até hoje, isso dá briga nos almoços de família.

quarta-feira, novembro 03, 2004

As flores do 1.003

Elas não estão mais lá. Até porque, se estivessem, eu telefonaria para a vigilância sanitária! As flores da menina do 1.003 ficaram na mesa por mais de dez dias. Uma prova de resistência.

Como isso me impressionou, passei boa parte do meu tempo observando a vida da menina das flores. Tentei descobrir quem era o rapaz que merecia tanta atenção. Mas o cara não apareceu por lá. Casado? De outra cidade? Virtual? Não sei. Procurei fotos, roupas, alguma coisa que denunciasse a presença dele. Nada.

Na era do Sex and The City, seriado descolado sobre mulheres de 30, caras que mandam flores não estão, necessariamente, presentes. Histórias de amor podem durar horas, dias, um mês. A insistência em manter o arranjo na mesa foi uma tentativa da menina do 1.003 de prolongar a história. Mas aí, as flores murcharam antes que ela percebesse.

Não que isso fosse um problema. No dia em que percebeu, a menina tirou o vaso – agora com gravetos e pétalas soltas – e foi logo colocando uma papelada no lugar. Entre os diversos bilhetes, cartas e panfletos, avistei o cartão que veio junto com as flores. No verso, anotado de forma apressada, estava um número de telefone. Telefone de um outro alguém. Alguém que, um dia, poderia mandar orquídeas ou simplesmente tocar a campainha e aparecer.

***
Não sou a única bisbilhoteira!!! Cheguei em casa para almoçar e minha diarista estava parada no canto da sala, olhando para o nada. Passou um pouco e ela olhou para as mãos e se virou para mim: “Sabe de uma coisa? A empregada dali da frente trabalha o tempo todo de luvas...”. Ok... entendi... Na próxima semana, ela vai encontrar um par de luvas no armário da área de serviço.