Indiscreta Janela

sábado, outubro 30, 2004

Se beber, não dirija

Meu vizinho do 707 tá ajoelhado na sala, com as mãos pra fora da janela, cantando Norah Jones. De vez em quando, dá uns berros. “Don’t know why I didn’t come...” Bêbado de dar dó...

Dois amigos estão sentados no sofá, com dor na barriga de tanto rir. Também estão meio “altos”, mas não naquela situação periclitante. Bebida tem disso. Existe um limite. Até certo ponto, você se diverte com os outros. Depois que você ultrapassa determinada barreira, aí, meu amigo... já era... Você se transforma na diversão.

A diferença mais gritante entre quem ultrapassou o limite e quem conseguiu se segurar é a memória. Enquanto você, morrendo de ressaca no dia seguinte, só lembra de flashes da noite anterior, seus amigos fazem questão de não esquecer nenhum detalhe. E as lembranças duram anos... Você vira assunto de todos os encontros. Se vai apresentar uma namorada nova pra galera, pode se preparar. Algum infeliz vai vir com aquele papo: “Ele já te contou do dia em que o vendedor de ostras se apaixonou por ele?”...

Uma vez, meu primo estava em casa, assistindo televisão com a namorada, quando o telefone tocou. Era o irmão dele, pra lá de Marrakesh.

- Tô bêbado, não vou dirigir. Vem me pegar.
Meu primo ficou até feliz. “Caramba, meu irmão é um cara consciente. Não vai se arriscar no trânsito. Legal.”. Enquanto ele pensava, o outro estava com pressa.
- Vem logo, que eu tô com frio e com sono!
- Beleza, onde você tá?
- No orelhão, porra!
E desligou.

Meus primos moram em Brasília. O Plano Piloto deve ter uns 300 orelhões.

domingo, outubro 24, 2004

Branca de Neve e os mil anões

Domingo sempre é dia de festa de criança. E dia também de os vizinhos não terem sossego. Nesse fim de semana, presenciei um duelo. O salão de festas do meu prédio foi ocupado pela Branca de Neve, os sete anões e sua patota - formada por mais de quarenta pirralhos fofinhos e barulhentos. No prédio em frente, os opositores: uma espécie de Power Rangers, acompanhados de uma legião de crianças, com as cordas vocais ainda mais saudáveis do que as que ocupam o lado de cá da trincheira.

Mau humor à parte - quem não fica, com esse barulho insuportável????? -, aniversário de criança é sempre uma porta para os sonhos. No pátio do prédio, o fotógrafo conversa com a dona da festa, devidamente vestida de princesa, com uma cestinha cheia de maçãs (ué... não é a bruxa que carrega as maçãs?). A sessão de fotos vai começar. A menina sorri, meio encabulada, olha de rabo de olho para as amigas. Em um segundo, capta não só a aprovação das outras garotas, como uma certa inveja. Fica mais segura, encara a câmera e dá asas à imaginação.

Enquanto faz pose, a aniversariante pensa no príncipe encantado, sonha com o conto de fadas. Ainda em transe, a pequena Branca de Neve é atingida por um pacote de lembrancinhas do Power Rangers. É que o dono da outra festa jogou o último pacotinho pelos ares, para que o amigo não pudesse trocar o carrinho azul pelo aviãozinho vermelho. Branca de Neve olha com ódio para o batalhão de meninos suados e descabelados e faz uma promessa. Nunca, nunquinha, ela vai trocar o Príncipe por um desses trastes. "Odeio garotos!", ruge. Como se o príncipe não fosse garoto...

***
Quantas Brancas de Neve já fizeram essa promessa? E quantas não se apaixonaram perdidamente por um traste que, nem com mil beijos, tem chances de virar príncipe? Acho que o cara do 701 é um desses sapos que andam por aí, destruindo corações. O apartamento tem altíssima rotatividade. A cada dia, uma mulher diferente. Bonitas, charmosas, roupas legais.

O cara faz tudo como manda o figurino, passo-a-passo. Coloca o CD, acende a luminária do canto da sala, vai para a cozinha e volta com a bebida. Vinho, vodca, cachaça, depende da personalidade da mulher. Beijo pra cá, beijo pra lá e... cortina fechada. No dia seguinte, nem rastro da moça. O garanhão já tá pronto pra outra. De vez em quando, recebe uns presentinhos, bicho de pelúcia, cesta de café-da-manhã, flores.

Hoje foi um dia diferente. Às oito da noite, ele já estava pronto. Visual despojado, do tipo "acabei de chegar e tomar um banho". Puro estilo. Ficou um tempão em frente ao espelho, passando a mão no cabelo e puxando a blusa, pra ela ficar solta. A moça só apareceu depois das dez. Chegou com um CD na mão, colocou a música que queria, abriu a geladeira, bebeu água com gotas de limão. Conversou, riu, passou a mão no rosto dele. Recebeu um telefonema, deu um beijo superquente no rapaz e foi embora. Simples assim.

O moço do 701 tá atordoado até agora. De vez em quando, vai pra janela e olha pro céu. Uma mulher dessas, em plena época de princesas desiludidas em busca de algum encanto, só pode ser de outro planeta.

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As flores do 1.003 já estão totalmente murchas, mas não saem da mesa. Tem até uns mosquitinhos passeando por lá. Quem foi rei nunca perde a majestade.

quarta-feira, outubro 20, 2004

Dia de Gisele

Chegou um convite na casa da moça do 905. Festa de uma das revistas de moda mais badaladas do mundo. Há mais ou menos quarenta minutos, a moça está estática, em frente ao guarda-roupas. Das quinhentas e sessenta e nove peças guardadas no armário, nenhuma combina com a festa. Desesperada, ela corre pro computador e dá uma checada no extrato bancário. Decidida, pega as chaves do carro e bate a porta.

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O apartamento do sétimo andar está uma bagunça. Um monte de peças espalhadas pelo chão, ferramentas, porcas e parafusos. No meio de tanto ferro (velho), um homem perdido, com as mãos desengonçadas. A esquerda está segurando um chuveiro. A direita, uma ferramenta não identificada por essa jovem leiga, que incentiva o trabalho informal e dá vivas aos bombeiros, eletricistas e todos os outros eiros e istas que nos socorrem em momentos de iminentes desastres domésticos.

Com as mãos ocupadas, o homem se curva para ler uns papéis que estão no chão, entre as pernas dobradas. Consigo identificar um tremor. Raiva, estresse, medo, nervosismo? Talvez seja pressa. Quanto mais rápido ele resolver aquele problema, menos riscos corre de ser desmascarado. Ele não sabe mexer nessas coisas! Só que, desde a sua remota infância, ELE foi criado para saber. Para resolver. Para ser o homem da casa. Por quê? Porque ele é ELE, oras... Assim como a irmã dELE é ELA, e liga pra ELE toda vez que precisa apertar um parafuso ou mexer no carro.

Atormentado por não conseguir consertar o chuveiro elétrico, o homem nem percebe que está sozinho em casa. E que pode abrir a lista telefônica e encontrar ajuda sem ninguém saber. Não existem olhares reprovadores. Nem as fotos da família, no aparador da sala, representam uma ameaça. Ele não percebe que faz parte da sua função de homem buscar a melhor solução, mesmo que seja contratar uma mulher especialista em termostato. Resolve tomar banho gelado, pra esfriar a cabeça. Antes de sair da sala, porém, dá uma olhada rápida para a foto da mãe, que continua sorrindo e orgulhosa do filho homem.

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A moça do 905 acabou de voltar. Tá com duas sacolas na mão. Certamente, comprou a roupa para ir à festa. Se bem que... as sacolas são de uma loja de departamentos. Ela não iria a uma festa chiquérrima com roupas da C&A... ou iria?? Ajeito o binóculo para observar o exato momento em que a nossa heroína tira de uma das sacolas um pedaço de pano preto, molinho. Na verdade, esse pedaço de pano saindo da sacola branca é um pretinho básico bem lindo. Da outra sacola, sai uma sandália, salto agulha, tiras pretas.

Sim, a moça comprou as roupas da noite na C&A. Depois de uma produção rápida, lá estava ela, linda, maravilhosa e com um sorriso no rosto - além da maquiagem caprichadíssima, claro. Essa é a vingança de todas as mortais: a moça que um dia, por obra do destino, recebe um convite para entrar no mundo dos descolados, fashion e poderosos, e vai à festa com uma roupa de loja de departamento. Se bobear, a compra foi dividida em dez vezes no cartão da loja - aquele que você tem que ir ao shopping para pagar a fatura e acaba comprando mais umas roupinhas divididas novamente em trocentas vezes, o que te obriga a ir à loja no mês seguinte, dar uma olhada nas novidades e... um círculo vicioso que só acaba no fim do ano - porque ninguém precisa passar perto do balcão do caixa da C&A em época de Natal!

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No 1.003, um prato de sopa divide espaço com as flores, não tão bonitas quanto há três dias. A dona da casa também não está tão radiante. Parece esperar que a companhia das flores seja substituída pela presença de quem as mandou. Não vi quem mandou. Só vi a sopa. Esfriando enquanto a novela passa na TV.

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São três horas da manhã. Da janela do meu quarto, posso ver as luzes acesas no 905. Lá está a moça, ainda produzida, um pouco descabelada e com um brilho no rosto de suor e alegria. Fez bonito com a roupa que jamais estaria nas páginas da badalada revista. Que bom. Durmo pensando que todo mundo pode ter seu dia de Gisele Bündchen.

sábado, outubro 16, 2004

É o bicho!

Sábado de manhã. O sofá cheio de tralhas, sacola de plástico, sacola de papel, caixa. Nada como uma ida ao shopping depois de uma mudança... Não faltam desculpas para entrar em tudo que é loja, comprar tudo que é bugiganga. E coisas bem importantes também. Como o meu binóculo.

Não sou bisbilhoteira, fofoqueira etc. Estou em plena pesquisa antropológica! Anos de faculdade devem ter servido para alguma coisa. Minhas observações são o ponto de partida para uma megapesquisa que ainda publicarei nessas revistas especializadas bem chiques. E que, dias depois, vai se tornar matéria na Folha: “Solteiros fazem refeições com os pés na cadeira, diz pesquisa”.

Sim, porque isso é fato! Todos os meus vizinhos que moram sozinhos sentam em uma cadeira e esticam as pernas na cadeira em frente. Estranho, né? Deve ser a ausência do opressor (mãe, marido, papagaio) que deixa a pessoa mais à vontade, querendo transgredir e botar o pé no estofado, sim, e daí??

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Tem doido pra tudo. Acho muito divertido esse povo que faz aula de ginástica em vídeo – ou DVD pros mais moderninhos. Lá está a moça do 605, na maior ralação, fazendo um monte de movimento maluco, em frente à televisão. Deve ser o vídeo da Jane Fonda, no mínimo! Caramba, a menina ainda faz aqueles exercícios de cachorrinho, para endurecer o bumbum!!! Ta lá, de quatro, levantando e abaixando a perna esquerda. De vez em quando, desequilibra e se apóia nos cotovelos. Ajeita o cabelo, preso com uma faixa tipo “Madonna Procura-se Susan Desesperadamente”.

Isso me lembra as aulas de educação física. Sempre odiei. Passava com 8,5 em química e biologia, mas ficava de recuperação em educação física! Exercícios chatos, difíceis, mico na frente dos gatinhos da sala, que jogavam futebol superbem e eram brothers dos professores. Nas aulas de vôlei, eu tremia só de pensar na dor daquela bola batendo nos meus braços, numa tentativa frustrada de dar uma manchete. Me sentia desengonçada, fraca, sem aptidão. Até que...

... bem... até que fiquei bastante brother do meu professor de educação física. Eu tinha 17. Ele, 27. Ele cantou no meu ouvido “há tanto tempo que eu te quero do meu lado, nossos caminhos não haviam se cruzado...”, que, pra quem não lembra, não é uma balada romântica, e sim a batida “É o bicho, é o bicho, vou te devorar, crocodilo eu sou”... Pois é... E foi assim, sem romantismo, com um cara dez anos mais velho, que me devorou e se mudou pro Tocantins... foi assim a minha primeira vez.

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Antes que eu me esqueça: as flores da menina do 1.003 estão lindas! Tive um namorado que dizia que só as flores dadas com amor ficavam bonitas e não murchavam. Depois de uma briga feia, ele me deu uma flor de madeira, pra não correr riscos...

sexta-feira, outubro 15, 2004

A vida dos outros faz parte da minha

Meu segundo dia de casa nova. Já estou há algumas horas no canto da janela, observando o prédio da frente. Tenho certeza de que esse prédio tem uma espécie de imã. Não consigo passar pela sala sem olhar para fora, mesmo que rapidamente. São tantas coisas acontecendo, pedaços de histórias, sorrisos e caretas que eu insisto em decifrar. O caso é grave. Coloquei, como quem não quer nada, um banquinho estratégico ao lado da janela. Dele, posso espiar à vontade, confortavelmente. Se o olhar de alguém cruza com o meu, desvio rapidamente para a minha TV, posicionada estrategicamente para os momentos de pânico.

Os apartamentos do lado de lá não são grandes. Daqui, posso ver dois quartos, sala e cozinha. Meus vizinhos são famílias pequenas, casais, solteiros. Tenho a impressão de que, quanto menor a casa, mais agitada a vida. O carinha do 807, por exemplo, não pára. De ontem pra hoje, já entrou, saiu, entrou, saiu, entrou, saiu. Cada hora com uma roupa diferente. Para onde será que ele vai? Tento buscar pistas... Observo o tipo de roupa que ele veste e o que carrega. Ontem à noite, foi fácil. Ele foi pra balada, todo engomadinho, cabelo penteado, blusa preta. "Ô, carinha do 807! Você podia ser mais ousado, hein? Colocar uma camisa rosa, deixar o cabelo mais natural..." Amo homens de camisa rosa. Pra mim, é uma prova de masculinidade. O cara tem que ser muito macho pra sair de camisa rosa e, ainda assim, arrasar. Sou fã.

Mas, voltando ao nosso amigo do oitavo andar. Chegou tarde da balada - tão tarde que eu nem vi. Hoje de manhã, obviamente, tava de ressaca. Como eu sei? Elementar. Virou uma garrafa d'água, que tirou da Consul Slim. E fechou os olhos com cara de dor na hora que a luz da geladeira acendeu. Puta dor de cabeça, meu! (Pelo estilo do rapaz, concluí que ele é paulistano da gema. Por isso, deve falar "meu", né?) Largou a garrafa na pia e saiu. Sim, saiu! E sequer trocou de roupa. O cara foi embora de pijama (xadrez, ainda por cima). Voltou com um pacotinho na mão. Ah, foi à farmácia... Estou ficando boa em decifrar a vida dos outros! Fechou as cortinas, ok... Vamos esperar a dor passar...

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A moça do 1.003 está pulando que nem uma doida em casa. Acabou de receber flores. O porteiro foi lá deixar. Por questões de segurança, o entregador da floricultura não pode subir. Deve ser chato isso. O pobre coitado do entregador passa o dia inteiro andando pra cima e pra baixo com flor pra cá, flor pra lá, e não pode nem ver a cara de boba da pessoa que recebe o regalo... E que cara de boba a moça fez! Divertido. Colocou as flores em cima da mesa, não pára de olhar pra lá. E o telefone pendurado na orelha, claro, que é pra contar para TODAS as amigas o que aconteceu.

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A dor de cabeça do rapaz deve ter desaparecido. Ele já está de bermudinha de lycra, camiseta justa e tênis com molinhas na sola e zíper no lugar do cadarço (como diria um amigo meu, hum... essa Coca é Fanta...). Não acredito. O cara vai pra night, bebe todas, acorda de ressaca, tem coragem de ir à farmácia de pijama e ainda vai correr! Preciso encontrar esse cara lá embaixo, na padaria, trocar uma idéia, tentar entender essa criatura. O que será que ele faz? Tento enxergar as tranqueiras que ele tem no escritório, mas não dá. "Ei, moço do 807! Me dá um desses remedinhos que você comprou. Já tô com dor de cabeça de tentar decifrar sua vida!". Se eu tivesse um binóculo, seria mais fácil...

Lembrei que tenho de sair pra comprar coisas fundamentais para minha sobrevivência. Um biquini, um sapato pra trabalhar, linha, agulha, um caderno, garrafinha de água pra levar pra academia e bateria pro meu despertador. Onde eu vou encontrar tanta coisa diferente? Ah, já sei. Tem um shopping que minha prima indicou no lado norte da cidade. É um pouco longe, mas tem de tudo. Parece até que tem binóculo...

quinta-feira, outubro 14, 2004

Lar, doce lar!

São cinco e meia da tarde e eu acabo de esvaziar a última caixa de papelão da minha mudança. O apartamento ainda está uma bagunça, mas já reconheço como a minha bagunça, da minha casa, minha nova casa. Meu lar.

Nos últimos três dias, não fiz outra coisa que não carregar tralhas, arrastar móveis, espirrar com a poeira e jogar coisa fora. Engraçado... eu tinha a impressão de que tudo o que eu havia trazido era tão útil... Como eu posso ter encaixotado tanto lixo???

Enfim... acabo de decretar o fim da mudança e o início de uma vida. Apê novo, porteiro novo, vizinhos novos. Não dá para continuar levando a mesma vida. Ou dá? Será que a gente carrega a vida da gente do mesmo jeito que carrega os livros, discos, pratos e talheres? Ih... olha a paranóia voltando... Resolvo tomar um ar para espantar os fantasmas que insistiram em seguir o caminhão de mudanças.

Respiro fundo, abro a cortina e a janela. Na minha frente, outras muitas janelas. Caramba! Que prédio enorme! Já passa das seis, o movimento dentro dos apartamentos é grande. Tem cozinheira se apressando para aprontar o jantar, mãe e filho voltando da escola, homem estressado com pasta na mão entrando em casa e batendo a porta. Quanta coisa acontecendo ao mesmo tempo!

Como estou na minha última semana de férias, decido passar um tempinho olhando para aquele monte de janelinhas. Fico ali, meio invisível, observando e tentando adivinhar o que se passa em cada apartamento que minha vista alcança. Em alguns casos, consigo ouvir as vozes e montar pedaços de diálogos. Cada história...