Indiscreta Janela

sábado, fevereiro 19, 2005

Mundo Virtual

O cara do 901 não sai do computador há horas. Está na internet, passeando por um monte de páginas, sem destino. Tudo desculpa para ficar 'on line' e encontrar alguém no msn - para os não adeptos do mundo virtual, msn é aquele programinha de conversa instantânea, ótimo para aproximar pessoas e para você falar tudo aquilo que não tem coragem ou oportunidade de dizer pessoalmente.

Parece que ele achou a pessoa com quem queria falar. E a conversa é superinterativa. Ele levanta, troca o CD, liga a televisão, muda de canal. Muito provavelmente, a moça (deduzo que só uma donzela mereça tratamento tão especial) fez algum comentário sobre o programa que ela está assistindo enquanto "tecla" com o rapaz.

Ele ri sozinho, faz cara de apaixonado, balança a cabeça, como quem não acredita no que está ouvindo - ou melhor, lendo. É muito interessante observar as reações do meu vizinho em frente a uma tela. E fantástico saber que, apesar de várias teorias contrárias, o computador aproxima sim as pessoas e cria relações que, se dependessem do bom dia no elevador ou do primeiro telefonema, jamais aconteceriam.

***
Conheço vários casos de gente que se aproximou pelo meio virtual. Tenho uma amiga que conheceu o marido na internet. Ele teclava da Europa, ela teclava daqui. No início, era só uma conversa para treinar um novo idioma. Hoje, ela está morando lá, com casa, filho, televisão.

Outros dois amigos não se conheceram pelo computador, mas tiveram uma ajudinha de Bill Gates para se transformarem em um casal. Foram apresentados rapidamente, em um jantar. Ficaram um tempão sem se encontrar pessoalmente. Só conversavam pelo tal do msn. Um belo dia, quando os olhares se cruzaram, os dois sentiram a "borboleta na barriga" e estão juntos até hoje. Fiéis ao estilo virtual de vida, mantêm o contato pela internet quando estão separados. É por lá que decidem o que vão jantar, repassam os nomes da lista de convidados para o casamento e, eventualmente, discutem a relação.

Conheço mais um casal que foi formado com a ajuda do msn. As conversas foram longas e intermináveis, até o primeiro encontro. Passaram um tempinho juntos. Um dia, explorando o computador do rapaz, a moça flagrou um e-mail suspeito. Caiu na real e deletou o romance.

quinta-feira, fevereiro 17, 2005

Venha ver o pôr-do-sol

Foi de uma janela, mas não da minha casa. Parei para ver o pôr-do-sol. E não existe nada mais libertador do que isso. Minha cidade, no centro desse país abençoado por Deus, é uma cidade de horizontes. Tudo muito plano, o céu fica enorme.

No caminho para casa, tem uma praça que – tenho certeza – foi construída só pra gente poder ver o sol se pôr. E foi lá que eu fiquei ontem, observando de dentro do carro. Já fiz isso várias vezes – algumas a dois, outras sozinha mesmo. Ouvindo a música predileta ou em silêncio absoluto. E toda vez que faço isso, saio de lá feliz da vida.

Lembro que, quando estava na quarta ou quinta série, as meninas da turma tinham um caderninho, no qual respondíamos um monte de perguntas: “qual o seu nome?”; “quantos anos você tem?”; “quantos filhos você quer ter?”; “escreva o nome de uma pessoa que você admira muito”; “você é virgem?” (nessa, meu namorado da época deu uma resposta superesclarecedora: “mais ou menos”!!!!)

Lá pela trigésima pergunta, a dona do caderno pedia pra gente escrever um pensamento. Tem um que não esqueço – estava em todos os cadernos, era o pensamento da moda. “Se você se esforça para fazer algo e nunca é reconhecido, não se preocupe. O sol dá um maravilhoso espetáculo todas as manhãs e há pessoas que continuam dormindo”.

Como eu adoro dormir e raríssimas vezes vejo o sol nascer, resolvi adaptar a frase e admirar o pôr-do-sol. Vale a pena. Eu, se fosse você, faria o mesmo. Hoje, agora, já. E me liga depois que o sol for embora. Beijo, tchau.

* Venha ver o pôr-do-sol é o nome de um conto da Lygia Fagundes Teles que li no colégio e até hoje me impressiona. Não tem nada a ver com essa história aqui, mas é legal.

terça-feira, fevereiro 15, 2005

Barraco no oitavo andar

Todo prédio que se preza tem uma baixaria algum dia. Uma batida de porta mais forte, um grito, choro, barulhos inexplicáveis. Quando a briga é com criança, fico agoniada. Quando é de marido e mulher – tenho que confessar –, meu interesse aumenta. Elas são reveladoras.

Outro dia, era hora do almoço. Eu estava lá, pés em cima da cadeira, tudo tranqüilo como um grilo. E aí, começou o barraco. Parecia cena de teatro: o cara de um lado, a mulher do outro, a empregada no meio!

A coisa devia estar pegando fogo mesmo, porque o casal ignorava a presença da pobre moça, estática, sem saber o que fazer. Na verdade, ela parecia uma espectadora de partida de tênis. Cabeça para um lado, cabeça para o outro. Mal piscava.

No início, não dava pra ouvir o que eles falavam. Era como se gritassem baixo – voz presa na garganta, cara de ódio. De repente, a bomba explodiu. O cara fez uma pergunta bem baixinho – que droga, não deu pra ouvir! - mas a mulher não se fez de rogada. Começou a berrar, entrou em surto. “Dei, sim!!! Dei, sim!!!” (A empregada, a essa altura, olhando para chão). “E ele é muito melhor do que você!!!”

Assim, simples e direto. Em alto e bom som, pra todo mundo – e não só a empregada – ouvir. Lentamente, cheguei perto da janela e fechei a cortina. Fiquei constrangida por ele. Não ouvi mais nada nos quinze minutos seguintes.

Indiscreta que sou, não resisti e voltei à janela. O cara estava no sofá, lendo um livro. A mulher, com toalha enrolada na cabeça e um roupão, lixava as unhas no quarto. Enquanto isso, a empregada varria o chão.

terça-feira, fevereiro 08, 2005

Ora, bolas

Feriadão é tempo de sair da rotina. Quem pode viaja. Quem não pode aproveita para tirar o atraso - no sentido bem amplo da palavra. Pode ser o sono atrasado, o cinema atrasado, saídas, sexo, TV, encontro com amigos. Ou, simplesmente, a arrumação do armário.

Minhas duas vizinhas do 805 resolveram botar ordem na casa. Uma delas está na sala, sentada no chão, todos os CDs espalhados. Está fazendo duas pilhas: uma, enorme, é a dos discos que ela quer guardar; a outra é daquilo que ela não quer mais. De vez em quando, a amiga vem na sala e furta algum da pilha menor. Tudo isso ao som dos CDs mais antigos, aqueles esquecidos, mas que ainda têm seu valor. "Como pude ficar tanto tempo sem ouvir essa música?", é a pergunta mais comum nesse tipo de 'faxina'. Ou então... "O que eu tinha na cabeça quando comprei esse disco???" Música é, realmente, uma coisa de momento. E é fantástico como ela tem o poder de trazer de volta esses momentos, mudar nosso humor, distrair em uma tarde de fim de semana prolongado.

A outra moradora do apartamento está no quarto, com as três portas do armário escancaradas, roupas jogadas na cama. Para arrumar armários, o esquema é esse: você tira tudo que está lá dentro, respira fundo e começa o trabalho. Nunca fui capaz de organizar as roupas de outra forma. Tem que ser na base do choque. Ou você coloca tudo de volta nas gavetas e cabides ou não vai ter onde dormir. Sem escapatória.

Embalada pelo som que vem da sala, a moça está fazendo um excelente trabalho. As prateleiras que antes representavam o caos estão superorganizadas. Branco com branco, preto com preto. Calças e casacos de um lado. Blusas finas penduradas nos cabides - ton sur ton. As estampas têm um espaço reservado.

Reservadas também estão as roupas que ela não quer mais. Já experimentou algumas, não gostou do que viu e deixou de lado. Agora é a vez da amiga dos CDs confiscar peças de roupa mais arrumadinhas. Entra no quarto, olha tudo, se emociona ao ver que aquela blusa ma-ra-vi-lho-sa de bolinhas já não tem mais lugar no guarda-roupas da outra. Segura a blusa com força, como uma criança que chega num parquinho com o brinquedo favorito nas mãos. E, assim, a tarde do feriado passa.

***
Também tenho uma blusa de bolinhas que adoro. Preta, bolinhas brancas. Um dia, estou no banheiro do shopping, lavando as mãos. Pelo espelho, uma mulher me observa.

- Sua blusa tá linda.

Comento que tenho ela há muito tempo, nem lembro onde comprei. Mostro que as bolinhas já não estão tão vivas - umas se perderam entre uma lavagem e outra. A mulher parece hipnotizada.

- Adoro bolinhas. Combinam com pérolas.

E olha para a minha pulseira de pérolas. Sem ter o que falar, concordo. Ela continua.

- Tenho até sapato de bolinhas.

Já atrasada para a sessão de cinema, sorrio. Não posso nem devolver o elogio - ela está com um conjuntinho de listras, uma combinação que não me atrai nem um pouco. Agradeço o comentário. Quando a minha imagem desaparece do espelho, ela sai do transe. Vem apressada atrás de mim e diz com a voz um pouco mais alta, quase em falsete:

- De nada.

Entramos na mesma sala de cinema, sem nos olhar. Como se nada tivesse acontecido no banheiro. Como duas estranhas - uma de bolinhas, outra de listras.

quarta-feira, fevereiro 02, 2005

Mas é carnaval...

Carnaval chegando, vizinhos se preparando. O carinha do 701 já fez a mala. Tênis, bermuda, protetor solar e lança-perfume. E muitas camisinhas. Se depender da intenção do rapaz, a festa vai render bons frutos...
No mesmo andar, a moça do 705 está em outro clima. Empilhou uns livros na mesinha ao lado do sofá e separou alguns dvds. Chegou hoje à noite com um monte de sacolas de supermercado, cheias de biscoitos, sucos, pães e frios. Para ela, carnaval é tempo de recolhimento, descanso no feriadão prolongado. Nada contra essa opção, mas será que não dava pra ler o livro na beira da praia e ir ao cinema, em vez de ficar deitada no sofá?

***
Observando essas duas janelas, com vidas tão diferentes, lembrei de um papo que meus alter egos levaram há uns cinco anos. Aproveito a proximidade do feriado para transcrevê-lo:
- Mamãe eu quero, mamãe eu quero... sumir dessa confusão! Não sei para que essa coisa de parar o país para pular carnaval... Tanta gente precisando trabalhar e todas as portas fechadas.
- Que coisa mais chata! Pára de reclamar, coloca uma máscara nessa cara amarrada e vem dançar. A festa não tem hora para acabar!!!
- Ah, tem sim! Acaba na quarta-feira, que de cinzas não tem nada. É o melhor dia, dia do fim, uma espécie de reveillon, vida nova!
- Até parece que virada de ano tem a cara de ressaca da quarta-feira... Quem é que vai começar o ano com dor de cabeça e saudade de um tempo de fantasias?
- Falou tudo! Fantasias... Como é que um monte de gente adulta, vacinada e calejada pode ter a coragem de vestir um monte de pedaços de pano para cair na folia e na esbórnia?
- Exatamente para ter coragem. Carnaval é tempo de liberdade...
- Tempo de brigas conjugais...
- De alegria e descontração...
- Porradas e coma alcóolico...
- Já vi que, com você, não dá para conversar! Tá bom, não gosta de carnaval. E de feriado, gosta?
- ... Hum...
- Por que não aproveita esses dias para se isolar no canto da parede e curtir um feriadão? Pode ficar tranqüilo que ninguém vai te achar, ou melhor, ninguém vai querer te procurar!
- Ih... tá por fora. Conheço milhares de pessoas que não gostam de pular...
- Provavelmente, são aqueles ricos empinadinhos, que aproveitam para dar um pulo na Europa ou, quem sabe, no Japão.
- Me disseram que até o Japão tem Carnaval agora...
- O que é bom tende a ser copiado...
- O que é ruim, também. Mas o que mais me revolta é a falta de opção: ou você pula carnaval...
- ... ou vira um chato, como você. Que coisa, parece que está fantasiado com uma venda nos olhos. Não enxerga nada! Existem milhões de coisas que você pode fazer sem cair no samba... Vai ao cinema...
- Com quem?
- Vai tomar sol...
- Com quem? Vê se vai ter alguma criatura acordada para ver o sol? Vocês só querem saber da noite!
- Mentira, existem algumas matinês interessantes... Agora, não reclame de falta do que fazer; o que você não tem é companhia!
- Ah, não, é? Claro que tenho! Olha você aí...
- Tinha que jogar na cara, heim? Sabe por que eu bebo até cair?
- Porque todo mundo faz isso...
- Não! No meu caso, é para esquecer que vou ter que conviver com uma pessoa tão baixo astral como você!
- E desde quando não gostar de folia significa ser baixo astral?
- Desde quando EU sou o alto astral! Conseqüentemente, você tem que ser o oposto.
- Não necessariamente...
- Tá vendo como você já está me contradizendo?
- Olha, já que a gente vive no mesmo corpo e nada vai mudar isso, vamos ver se, pelo menos nesse feriado, a gente consegue um pouco de paz, falou?
- Paz, no carnaval? Enlouqueceu de vez?? Aliás, quem não enlouquece aqui dentro? Não sei o que fazer...
- Faz o seguinte: eu vou dormir durante esses quatro dias. Na quarta-feira, quando você chegar do baile, me acorda.
- Se meu teor alcóolico me permitir...
- Vai permitir, sim. Aí, eu deixo você dormir até a outra segunda-feira...
- E perder o outro fim de semana? Nunca!
- Tá bom, você acorda quando quiser, mas por favor, cala a boca que EU quero dormir!
- Boa noite, Bela Adormecida!
- Tchau, Globeleza!!! Juízo!