Indiscreta Janela

terça-feira, abril 26, 2005

Mania de blog

Sim, estou abandonando este blog. Abandonando, não. Suspendendo por tempo praticamente determinado. Mas criei outro. Com proposta diferente, o "Ora, Pílulas" já está no ar. Aguardo a visita de vocês por lá.

www.orapilulas.blogspot.com

Beijos e muito obrigada pela companhia durante minhas espiadas indiscretas.

segunda-feira, abril 25, 2005

A janela da gente

Faz tempo que não olho para os meus vizinhos. Acho que chega um momento em que a gente tem necessidade de prestar atenção apenas no que acontece do lado de dentro da nossa janela. São tantas histórias, tantas idas e vindas, que a vida dos outros (daqueles outros desconhecidos que vivem do lado de lá) perde um pouco o sentido.

É claro que passei um bom tempo me divertindo com o que acontecia no prédio da frente. A moça do 1.008, que tentou de toda forma impedir a ‘morte’ das flores que recebeu; o casal gay que vivia no 803, confirmando que toda forma de amor vale a pena; a velhinha que se mudou para lá depois e tanto lembrou minha tia.

Às vezes, olhava pela janela e me via refletida em outras pessoas. O Leite Moça com Nescau do 905 me deixa até hoje com água na boca. Carnaval, Natal, Páscoa – todos comemorando essas datas de alguma forma. As luzes do 907, apesar de um pouco exageradas, acabaram iluminando a minha árvore de Natal, que só tinha presentinhos e bolas vermelhas. No andar de cima, o cachorro do casal parecia o ‘mascote’ da minha mãe.

***
No cantinho do prédio da frente, vejo uma menina de uns dezesseis, dezessete anos. Olhos vivos, ela encosta os braços na janela e observa. Está há um tempo olhando para baixo, provavelmente vendo alguma cena de um morador do meu edifício. Compenetrada, nem se preocupa em esconder a curiosidade.

Em um segundo, nossos olhares se cruzam. Ela fica meio sem graça. Eu sorrio. E ainda com o sorriso no rosto, percorro as janelas com os olhos e lembro de um pedaço de história de cada quadradinho. Pessoas estranhas que me ignoram completamente e que, ao mesmo tempo, fazem parte da minha vida.

Mas não perco de vista que elas são apenas uma parte. E que o todo está me chamando agora. Olho para o meu binóculo na estante da sala. Resolvo deixá-lo ali, para qualquer eventualidade. Mas, por ora, resolvo não mais espiar a vida dos meus vizinhos. Sento no sofá, ligo a TV e, com a certeza de estar sendo observada pela menina dos olhos espertos, volto a viver a minha vida.

quarta-feira, abril 13, 2005

Diploma na parede

Estava observando as paredes do primeiro quarto do 707. Lá estão pendurados diversos diplomas, devidamente emoldurados e com vidros anti-reflexo. Não resisti, peguei meu binóculo para vasculhar a vida do meu vizinho.

Descobri que ele se formou em Letras e fez uma especialização em Literatura Infantil. Também participou de um seminário em Madrid sobre a arte de contar contos. Tem diploma de inglês e de espanhol. E um certificado de um curso de 48 horas em mandarim. Não sei como alguém consegue se comunicar com um chinês em apenas dois dias, mas, se está pendurado na parede, eu acredito...

Ao lado dos diplomas, está uma foto de um menino novinho, com beca de cetim azul, provavelmente na primeira formatura de sua vida, na pré-escola. Símbolo do início de uma jornada de conhecimento.

Paredes, mesas, agendas e – na era da informação – páginas na Internet podem dizer muito sobre uma pessoa. Cada objeto, quadro, anotação representa uma característica que a gente quer mostrar, um recado que a gente quer passar. Para o meu vizinho, os cursos feitos ao longo da vida estão ali, presos à parede, como se em cada moldura coubesse todo o conhecimento adquirido nas tantas horas/aula especificadas em cada diploma.

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Já fiz vários cursos. As matérias mais diversas. Fiz curso de artesanato, culinária, alemão e curso de pós-graduação. Tanta coisa que, não raro, esqueço o conteúdo do curso em si. Mas guardo sempre as lições que não caíram na prova.

Da minha pós, por exemplo, só carrego coisas boas – mesmo sem lembrar o nome de um professor sequer. O grupo era sensacional, formado por pessoas que se cruzaram na hora certa e que, até hoje, tentam compatibilizar agendas para poder se encontrar e dizer “turma como a nossa não existirá jamais”.

Não sei onde está meu diploma de pós-graduação. Pensando agora nas histórias daquela época, fiquei com vontade de pendurá-lo na parede. Assim, eu ficaria horas viajando por minhas lembranças. Seria uma espécie de portal. Um túnel do tempo, emoldurado, com vidro anti-reflexo.

sexta-feira, abril 01, 2005

Primeiro de abril

O vizinho da frente está no sofá, morrendo de rir da namorada. Ela está com cara de quem comeu e não gostou. No início da brincadeira, até riu, fingiu que estava brava, deu uns socos no braço dele. Mas agora, acho que ela está com raiva de verdade. Também... as risadas do cara já duram mais de quinze minutos!

O que aconteceu foi o seguinte: ele pregou uma mentira nela. Hoje é primeiro de abril, dia internacional das pegadinhas (descobri que era internacional outro dia, na aula de inglês). Não sei o que o moço disse, mas a pobre coitada da namorada entrou em casa esbaforida, como se algo muito grave tivesse acontecido com ele. Abriu a porta e deu de cara com o bonitão, inteiro e sorridente, cheio de amor para dar, dizendo como uma criança: “Primeiro de abril, primeiro de abril”.

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Já passei por 29 Dias da Mentira. Tirando os primeiros anos de vida – nos quais não tinha nem discernimento para saber o que era mentira ou verdade –, eu SEMPRE caí em TODAS as pegadinhas. Na época da escola, saía de casa tensa, preparada para me defender dos mentirosos de plantão. Aí, chegava na sala de aula, começava a fazer um dever aqui, outro ali, relaxava e... pumba... caía como um patinho.

Com o tempo, fui ficando mais esperta. Não tão esperta a ponto de deixar de acreditar nas histórias mirabolantes, mas, pelo menos, arrumei um jeito de me sair bem. Fulaninho chegava e contava aquela mentira. Eu, claro, levava tudo a sério até o grande momento do “hahaha, primeiro de abril!!!”. Aí, com toda a autoridade do mundo, eu dizia: “Ficou louco? Primeiro de abril é amanhã. Hoje é dia trinta e um!”. Não tinha um que não hesitasse. E essa era a hora de eu encher o peito de ar e, finalmente, dizer: “Primeiro de Abril!!!!!!”

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Recadinho pessoal para dois amigos queridos que me fizeram de boba hoje: azeite, seus malas!